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25.07.2020 - 15:14:26
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Ela nunca foi de falar muito. Só o necessário, e de maneira firme e segura. Para os filhos, bastava o olhar para dizer tudo.
 
Uma pessoa simples, sem muitas vaidades, sempre elegante em sua simplicidade, em sua postura, em suas atitudes, uma presença que impõe respeito e admiração. Conselheira, indica a melhor direção e faz as observações oportunas. Companheira, esteve e está presente em todos os momentos e em todas as solicitações. Amiga, tem sido suporte para todos e em todas as circunstâncias. Justa, aprendeu e nos ensinou a respeitar o que é de cada um, a compartilhar, a doar, ser solidário. Administradora, sempre soube multiplicar o pouco que teve e agasalhar os muitos que a procuraram e a procuram. Carinhosa e afetiva, sempre distribuiu amor e foi gentil.
 
Maria Luíza Naves, a caçula de três irmãos, chamada pelos mais próximos de Nenenzinha e, depois, Nenzinha, chega neste dia 25 de julho de 2020 a uma idade especial, referencial: 99 anos. No total, são 36.135 dias ou 867.240 horas. Muito?
 
Para nós, não importa, e sim sua lucidez, sua força, seu entusiasmo pela vida, sua presença, sua preocupação para com todos à sua volta, a quem trata sempre com muito carinho e atenção. Uma energia que nos apoia e revitaliza com sua vontade de viver, de saber a vida de cada um dos filhos, netos e bisnetos, pelos quais sempre pergunta, chamando para seu convívio, para ficar mais perto, para proteger.
 
Órfã quando ainda não tinha completado dois anos, na pequena Trindade – a mãe, Maria de Araújo Oliveira e Silva, mineira de São Gotardo, faleceu aos 25 anos, de gripe espanhola, junto com a terceira filha, que acabara de nascer –, foi criada pela avó paterna, homônima, Maria Luíza de Jesus. No final de 1925 a família se mudou, ela já com quatro anos, para um vilarejo que estava sendo organizado na Fazenda Boa Vista, no município de Campinas, então com poucas casas, reduzidas famílias e que se tornou a Vila de São Geraldo.
 
Logo entendeu o que é responsabilidade, assumindo seu papel de protegida da avó e de protetora das pessoas com quem convivia.
 
Aos 15 anos, em meados de 1937, conheceu o jovem José Rodrigues Naves Júnior, então com 22 anos, que acabara de assumir o Cartório de Registro Civil do agora Distrito de São Geraldo, com quem, no ano seguinte, casou-se, aos 16 anos – completou 17 anos três meses depois –, teve José Osório, o primeiro dos nove filhos, aos 17 anos – só completaria 18 anos cinco meses depois –, e foi organizando sua família.
 
Não teve a chance de estudar, pois no lugarejo não havia escolas e o pouco que aprendeu foi em aulas com professores particulares que sua avó conseguia levar de Trindade. Na rotina diária, foi aprendendo a somar, fazer render aquilo que a avó conseguia com suas costuras, atender a todos em seu entorno, e já revelando o espírito de liderança. O padre Pelágio Sauter, que dava assistência religiosa na região, gostou de suas apresentações musicais e a incentivou em suas aulas de canto.
 
Aos 19 anos, nascido o segundo filho, Raulindo Heinzelman, dona Nenzinha foi nomeada pelo prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges, para subprefeita de São Geraldo. No ano seguinte, em meio à II Grande Guerra Mundial, que deixou a todos inseguros diante do futuro, e se apegando à devoção a Nossa Senhora Aparecida, nasceu a terceira filha, Maria Aparecida, e, em 1945, a quarta, Elvira Luiza. Na época, o marido estava em plena campanha para organizar o Diretório da União Democrática Nacional, legenda pela qual ele se elegeria Vereador em Goiânia nas eleições seguintes. Foi o primeiro dos quatro mandatos consecutivos para os quais foi eleito, tendo por base, justamente, esse distrito, e dona Nenzinha como o principal cabo eleitoral.
 
Em 1947 dona Nenzinha voltou ao cargo de Agente Municipal (Subprefeita) do agora distrito de Goianira – os mais antigos se recordam de ter sido ela quem colocou esse nome na localidade; deixou o cargo já no final de dezembro, conforme decreto do então prefeito de Goiânia, Eurico Viana, no nono mês de gestação do quinto filho, Sevan, que chegou em janeiro de 1948. Eu nasci em 1950 quando o meu pai presidia a Câmara Municipal de Goiânia. Ela sempre o ajudou em suas campanhas eleitorais e no cumprimento dos mandatos.
 
A segunda perda marcante de dona Nenzinha foi quando faleceu a avó que a criou, em 1953, aos 77 anos, e a terceira aconteceu no ano seguinte, do irmão mais velho, José Heinzelman da Silva, 37 anos, período em que esperava a sétima filha, Fátima Rosa, já residindo em Goiânia. Em 1957 nasceu Regina Cândida e, por último, a nona, Eliza Mônica.
 
Quando o marido foi Prefeito de Goianira lá estava ela participando de todas as iniciativas – exerceu com zelo e dedicação sua função de realizar atividades sociais produtivas e práticas, para ensinar quem quisesse aprender uma nova função, a ter uma profissão; e de acolher os doentes e buscar tratamento para eles na Capital, que dispunha de melhores condições de atendimento médico e sanitário, dentre outras ações pela comunidade.
 
Sempre atenta, esse tempo todo dona Nenzinha foi uma pessoa marcante e decisiva em nossa vida. Soube impor disciplina, foi rígida nas cobranças, educou os filhos, protegeu-os e os encaminhou, sempre oferecendo, a cada um, suas orações e seu carinho, fizessem o que fizessem. Católica, sempre faz suas preces por todos.
 
  O pai, Osório Carlos da Silva, faleceu em 1984, com 86 anos, e a perda que mais a abalou foi a do marido, José Rodrigues Naves Júnior, em 1995, aos 80 anos. Ela nunca foi de chorar, sempre segurando as lágrimas, mas na despedida de meu pai chorou muito, e por muitos dias, numa tristeza que doeu em todos nós. Fato que se repetiu quando da perda da irmã, Eliza de Araújo e Silva Oliveira, em 2006, com 87 anos, com quem sempre estava junta, e mais recentemente com o primeiro falecimento de um filho, Raulindo Heinzelman, aos 79 anos.  
 
Nesses 99 anos dona Maria Luiza Naves tem sido uma presença requisitada, uma aglutinadora, que quer todos em sua volta, mais ouvindo do que falando, observando, opinando quando consultada, e sempre lutando pela proximidade de todos.
 
Dona Nenzinha é mãe de nove filhos, avó de 27 netos, bisavó de 29 bisnetos, madrinha de uns 400 afilhados oficiais e de outros tantos que a chamam assim apenas por admiração, carinho e afeto, e criou como filhos os irmãos e as irmãs que foram morar em sua casa, como também os sobrinhos, filhos de parentes e de amigos de Goianira que a procuraram. Nunca negou apoio a ninguém.
 
A bênção, Mãe! Que Deus lhe dê mais saúde e mantenha sobre nós a sua proteção!
 
*Jales Naves é jornalista e escritor
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por Jales Naves

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