Goiânia – Certa vez a presidente Dilma Rousseff se dirigiu aos cidadãos brasileiros por meio de um vídeo transmitido em rede nacional. Ela dizia, em um determinado momento, algo como “a população brasileira tem de acreditar em tempos melhores”.
O vídeo foi refeito e reapresentado em forma de pílulas, nos dias seguintes, com a seguinte alteração: “a população brasileira tem que acreditar em tempos melhores”.
Por que a expressão “tem de” foi substituída pela expressão “tem que”, se os gramáticos puristas consideram que a primeira é a correta?
Vamos por partes. Embora a expressão “ter de” seja a mais antiga, e consensualmente correta, o uso de “ter que” já é aceito por grande parte dos estudiosos, devido ao seu uso contínuo e massificado. O português, como língua viva, tem na oralidade o poder da mutação.
O que acontece com o “ter que” é o uso do pronome relativo que no lugar de uma preposição, exercendo função anômala, o que ocorre também em várias outras situações, como nas que os particípios irregulares fazem as vezes de adjetivos (ex.:A carta foi impressa).
Se as duas formas estão corretas, e com certeza, a equipe que elaborou o texto gravado pela presidente sabia disso, resta agora entender porque houve a alteração. A primeira versão, aos olhos dos marqueteiros, soou pedante, erudita e distante do povo. Ao substituir uma expressão castiça por uma coloquial, a assessoria de Dilma fez com que ela ficasse mais à vontade, como se estivesse batendo um papo.
A adequação vocabular é imprescindível para uma persuasão efetiva. A essa altura, centenas de candidatos de todo o país estão sendo orientados e preparados para afinar seus discursos e aparecer, a partir do dia 19 de agosto, na propaganda eleitoral gratuita de rádio e TV.
Interagir com o eleitor de forma clara e objetiva, mas sem menosprezar sua inteligência, é um grande desafio. Adotar uma linguagem que agrade o cidadão independentemente de nível social e cultural é uma tarefa árdua, que envolve estratégias de marketing, ética e estilo. Afinal, é preciso se apresentar com simpatia e ser capaz de exercer convencimento.
Assim que os candidatos começarem a se apresentar eu volto a esse assunto. Como em todas as campanhas eleitorais, este ano deveremos ter exemplos de oradores natos, bom uso da língua, marketing bem aplicado e também o contrário de tudo isso. O que nunca falta é criatividade.