Goiânia – Você, nobre leitor, já deve ter passado por alguma banca de revista na vida. Para comprar um cartão de recarga do celular, cigarro ou qualquer outro badulaque. Você é uma pessoa normal, do século XXI. Não é o meu caso. Eu frequento banca de revista semanalmente. Só para olhar o que chegou de novo, ver as capas das revistas, os gibis e, se algo interessar, levo para casa. Sou basicamente um homo erectus alfabetizado.
Tenho certeza que você não faz isso na banca de revista. Afinal, sou muito mais velho que você – senão de idade, certamente de espírito, disposição, ideias e paciência. Tenho convicção que serei o último cliente da última banca de revista do mundo. Minha certeza para tal afirmação é simples: em toda banca que entro, sou o mais jovem olhando o que pintou de lançamento por ali.
Nessas bancas mais modernosas, os mais novos estão imprimindo algo na lan house. Nas mais tradicionais, estão comprando picolé ou cartão de celular pré-pago. Quem me acompanha olhando as prateleiras, folheando as publicações e levando papel, sim, papel, para casa é só gente grisalha e com a vista cansada – companhias que me orgulho de ter.
Aprendi a frequentar banca de revista com meus pais, na heróica banca da Praça do Avião. Eles iam lá comprar o jornal ou alguma revista e sempre eu saía no lucro, com figurinhas ou gibis nas mãos. Fui crescendo e o hábito não esvaeceu. Depois dessa fase, vieram a Placar, Mad, Bizz, revistinhas de cifras de violão, revistinha de sacanagem, Playboy, Caros Amigos, Bravo, Cult, quadrinhos adultos, Piauí, Rolling Stone… Cada fase de minha vida foi acompanhada de uma revista que eu comprava na banca.
Não vejo meus contemporâneos com os mesmos hábitos, salvo raras exceções. Da minha geração em um dos meus trabalhos, sou o único que ainda lê jornal no papel. Dos amigos que tenho de frequentar a casa, sou o único que tem espaço na sala para as coleções de revistas. Bem-vindo ao meu universo em extinção!
Confesso que me rendi à comodidade de assinar algumas revistas que faço questão de ler mensalmente. As outras, a capa tem que me ganhar. Uma manchete, uma entrevista, uma foto… É a mesma coisa com os gibis. Não acompanho nenhum mensalmente. Mas se a história me pegar pela capa na banca, vou até o fim daquela trama.
Só leio jornal pelo tablet no final de semana, quando estou com preguiça de sair de casa. Só leio gibi no mesmo dispositivo se eu não encontrar nas bancas ou no Estante Virtual. Estou no meio do caminho entre o analógico e o digital, mas com tendências claramente retrógradas.
Sei que estou com os dias contados. Mas o que é minha vida senão sempre nadar contra a corrente só para exercitar? Obrigado, Cazuza. Até a última banca fechar, lá estarei olhando as revistas e gibis. E entulhando minha casa de papel, para alegria dos ácaros e terror dos alérgicos.