Goiânia – A propaganda eleitoral gratuita começou me oferecendo vasto material para análise. Só no primeiro dia foi possível perceber que a preocupação com a comunicação e com o bom português passou longe das prioridades de vários candidatos.
Uma coisa boa foi o cumprimento da seguinte determinação: “Para as propagandas na televisão é obrigatória a utilização de linguagem de sinais ou de recurso de legenda, para que os deficientes auditivos tenham acesso ao conteúdo dos programas”.
Todos as coligações optaram pelas legendas, provavelmente por ser o recurso mais barato. Mas não precisavam economizar tanto a ponto de deixá-las nas mãos de pessoas pouco carinhosas com nosso idioma.
Primeiro ponto: a pontuação estava sofrível. Vírgulas entre sujeitos e verbos e entre verbos e objetos, falta de ponto final e de exclamação, uma loucura. Imagino a dificuldade para quem só leu, sem poder ouvir.
Além disso, nos casos em que o candidato resolveu alterar o texto na hora da gravação, ouvia-se uma coisa e lia-se outra. Se a oração era muito grande, na legenda aparecia reduzida. Talvez isso fira as normas, pois acabam sendo veiculadas informações diferentes para os distintos públicos.
Letras maiúsculas pipocavam sem a menor justificativa, a crase foi ignorada e erros assustadores como “dez porcento” e “A Justiça está caçando (cassando) o direito de greve” também insultaram os eleitores.
Nas falas dos candidatos, as pérolas brilharam mais. Claro que deve haver uma adequação vocabular para dialogar com o eleitor, mas isso não permite erros gritantes.
Uma candidata a presidente disse que evitou que a crise internacional “entrasse porta adentro” no Brasil, e que nos EUA milhões de empregos foram “destruídos” (por armas químicas, talvez?). Ainda disse “ocê” várias vezes e filosofou dizendo que o pessimista é “eminentemente” (não seria iminentemente?) uma pessoa que desistiu antes de começar.
Um candidato disse que não existe esse “mundo rosáceo (palavra pouco usual que significa relativo a rosas) que os governantes falam”. Outro candidato disse que “como presidente, a constituição será cumprida”. É o mesmo de eu dizer que, como colunista, a gramática será respeitada. Ou seja, não faz sentido. O certo seria “como presidente, farei cumprir a constituição”, por exemplo.
Uma candidata disse que atua “junto ao governo federal” para liberar recursos. Como “junto ao” significa “ao lado de”, pode ser que ela tenha tido a intenção de dizer que atua na Praça dos Três Poderes, que dependendo do ângulo, fica ao lado do Palácio do Planalto.
Mas o melhor do dia foi o slogan de uma candidata a deputada: “Futuro já!”.
Reproduzo a pergunta da minha colega jornalista Denise Vargas: “Cadê a assessoriaaaaaaaaaaaa?