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O chato do vinil

05.09.2014 - 12:30:40
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Goiânia – Lá vou eu de novo falar mal de gente parecida a mim. É a triste sina de quem escolheu ser esse sujeito chato e que não acha nada engraçado. Tal qual Raulzito, macaco, praia, carro, jornal e tobogã para mim é tudo um saco. Vamos ao que interessa: não estou tendo a menor paciência para o chato do vinil.

Igual tem o chato da cerveja, o chato do vinho, o chato do café, agora desponta o chato do vinil. Ele é uma espécie de sommelier do LP. Sabe a temperatura certa que a agulha deve ter ao encontrar o sulco, sabe como limpar o disco para que a poeira não prejudique a audição, sabe balancear o peso do braço da vitrola… Só não sei se ele sabe o que é uma música boa.

São os zé-reginhas, tal qual Tostão batizou os que defendiam a punição do Flamengo e o rebaixamento da Portuguesa no Brasileirão do ano passado e que salvou o Fluminense da Série B do campeonato de 2014. Gente que se apega aos detalhes e não se atenta à essência. Percebe a forma mas não se liga no conteúdo. Gente insuportavelmente chata. Traduzindo para a língua da rua: chata pra cacete!

O chato do vinil se preocupa mais com a capa do que com o som. Mais com a pureza do áudio do que se a música é acachapante. Mais com o modelo do toca-disco do que quem toca bateria no álbum.

Costuma ser habituée de sebo, mas só porque pega bem no mundinho hipster. A real é que carrega álcool em gel em sua bolsinha ecologicamente correta para limpar a mão logo depois que deixa o local. Ah, e também tem rinite alérgica à poeira e não aguenta cheiro de mofo. Velho, na boa, gente assim tem que ser freguês é do iTunes, não de sebo no Centro da cidade!

Preciso confessar que a hypada geral que o vinil deu graças à modinha foi boa para mim. Vários títulos foram colocados novamente nas prateleiras, muitos lançamentos agora têm cópia em vinil. O problema foi a fetichização do objeto. E Benjamin estava certo que isso acaba com a beleza da aura.

O bom do disco é ele estar empoeirado, é ele chiar, é ele pular de vez em quando, é ele ter graves inalcançáveis em qualquer outro formato, é ele ter a capa e o encarte grande para lermos os detalhes. O vinil não é legal pelo fato de estar tocando naquele bistrozinho super descolado de ares londrinos e cheio de fotos de Polaróide.

O chato do vinil vai acabar transformando algo super massa em coisa de fresco para a percepção geral. Se é que já não está com essa aparência. E incomoda entender que eu, que não caí na mentira da indústria da substituição do vinil pelo CD e comprei grande parte de minha coleção na Feira da Marreta, estou no mesmo grupo desse chato. É de doer o pâncreas.

Vinil é bom com pinga, não com chá. E fique você com sua vitrolinha hipster saída direto da Fnac no seu mundinho aí.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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