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Me desculpe, Patrícia. A punição foi necessária

18.09.2014 - 12:08:02
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Uma menina adolescente, negra, moradora de rua, internada na Febem de Goiás. Diz que seu sonho era morar na rua e o realizou. Depois disse que o próximo sonho era ser presa. Também o realizou. Essas cenas foram documentadas por Cláudia Nunes, cineasta goiana, no filme “Número Zero”.

Quem quer saber o que esses meninos da Febem têm a dizer? Quem quer ouvir a versão desses negros pobres de seus crimes? Quem já ouviu as razões daquele que restou só, preso, por ocasião das manifestações de junho, por portar pinho sol? Ou, virando a pergunta do avesso, quem dá voz a eles?

Na semana passada o programa Encontro, da Fátima Bernardes, deu voz a Patrícia, aquela que ofendeu Aranha no jogo contra o Grêmio e lhe chamou de macaco. A Folha de São Paulo repercutiu a presença dela no programa em uma notícia que dizia que a garota estava abatida durante a entrevista. Antes, ela teve oportunidade de dar coletivas com declarações e advogados. Hoje, ela mais uma vez deu entrevista contando que toma remédios para dormir e que não tem preconceito. Até já ficou com um negro. Foi a revelação de hoje.

Pois bem. Trago três pontos.

Primeiro. Essa garota passou por um linchamento moral tão imoral quanto a sua atitude de xingar o goleiro. Foi a Geni das redes sociais. Foi demitida do trabalho. Chegou ao ponto de ter sua casa apedrejada e objeto de tentativa de incêndio. O rosto dela foi tão repetidamente exposto que fica difícil alguém não a reconhecer. Mas linchamentos morais não só são desnecessários e estúpidos como podem ser perigosos.

Não só do ponto de vista pessoal, que traz transtornos à vida do indivíduo, mas também do ponto de vista do próprio processo de se atingir o que pretende: combater o racismo. Se de um lado provoca-se o linchamento, do outro ele vem acompanhado de uma compaixão. Ela tem espaço para dizer à grande imprensa que tem tomado remédios para dormir, que não tem mais vida social e que detonou a sua vida. Provoca um sentimento de pena que esvazia o debate político ao voltar os olhos cheios de compaixão para garota e pensar que: tadinha, quem nunca fez isso? Coitada! Não era para tanto.

Disso, segue-se um movimento que acaba por esvaziar essa tão importante decisão de se punir coisas tão banais e triviais do cotidiano e gravíssimas do ponto de vista humanitário e cultural.

Segundo. O linchamento foi tão grande que, não por outra razão, a garota ganhou espaço na mídia para se justificar. A compaixão levou a garota aos privilegiadíssimos espaços de comunicação. Espaços esses que os negros xingados por ela e por tantos outros todos os dias jamais tiveram acesso para se justificar de um crime cometido.

Não que não ache justo ela ocupar esse espaço. Pelo contrário, ela é parte desse debate acerca do racismo e preconceito e precisamos ouvi-la para entender o que acontece dentro e fora de campo. Por exemplo, entendi que o buraco é muito mais embaixo. Nas coletivas e em suas participações em programas e entrevistas, ficou claro que o arrependimento dela está muito mais ligado às consequências ao seu time do coração (que ficou fora da Copa do Brasil) do que a uma consciência da gravidade de se repetir e ecoar pequenas atitudes de preconceito.

A conversa não poderia mesmo tomar outro rumo. Porque esse mesmo espaço que deu voz a ela não pretendia outra coisa senão espetacularizar sua atitude e, até mesmo, sua dor. Porque se essa incessante exposição provoca compaixão de um lado, provoca ainda mais raiva do outro ao ver repetidamente ela dizer que não foi preconceituosa. E raiva e exposição, assim tão bem combinadas, podem mesmo levar ao ataque da casa da garota.

A imprensa dá voz à Patrícia, mas continua sem saber dar voz ao debate contra o racismo. Simplesmente porque não é esse o objetivo. Convida aquela que praticou racismo para um programa e deixa de convidar movimentos sociais que há anos lidam com o tema e poderiam elevar o debate e nossa reflexão. O convidado, pelo contrário, foi um médico para explicar como, no momento de raiva, a pessoa acaba soltando uma bobagem dessas. Como se o caso Aranha x Patrícia fosse isolado. Como se tratasse de um processo meramente psicológico.

Resultado é que nem ela nem ninguém sai dessa exposição refletindo sobre o racismo e convencido de que uma atitude banal dessas (xingar o goleiro de macaco) não pode ser mais tolerada mais de 200 anos depois da abolição da escravidão. A exposição exagerada não coincidiu com uma reflexão e debate que mostrassem, de uma vez por todas, todos os tentáculos perigosos de um racismo ingênuo e sutil, como xingar jogador de futebol.

Aqui, chego ao terceiro ponto: a punição. E é somente esse o caminho rumo a um lugar onde as pessoas são respeitadas em sua humanidade e não temem ser violentadas por ser o que são. Somente quando existe um Estado que regula as relações bárbaras entre as pessoas, se resguarda a pluralidade delas. Quisera eu que não fosse necessária lei para punir quem bate na mulher. Quem xinga negros de macacos. Quem espanca seus filhos. Enquanto não conseguimos viver uma ética para além da legislação, ela se faz necessária e urgente.

Foi esse (e ainda está sendo, apenas começando) o caminho necessário para que violência contra a mulher não fosse considerada coisa pequena ou assunto de foro íntimo. É esse o caminho que se pretende para que homossexuais não morram e sejam linchados pela sua opção sexual.

Mais importante, ainda, a punição substitui linchamentos morais. Não quero nem saber quem cometeu o que. Não queria ter gravada na minha mente o rosto de Patrícia. Nem sequer saber o nome dela. Nem mesmo acharia necessário que isso se tornasse notícia. E, consequentemente, ela continuaria a ter sua vida social, estaria dormindo sem remédios, talvez estaria trabalhando normalmente no mesmo emprego. Tocaria sua vida apenas pagando pelo crime que cometeu e refletindo sobre isso sem traumas.

Apenas com punição resguardamos, pessoalmente, quem cometeu esse crime, protegemos quem foi prejudicado e avançamos rumo ao fim de práticas como essa.

Patrícia, sou contra o linchamento moral a que foi submetida. Sinto pelo transtorno que sua vida se tornou. Mas, me desculpe, seu time do coração teve de ser punido e você terá de responder um processo para que sua nação siga adiante. Para que a gente caminhe rumo a um Brasil que não tolere violências contra o que é diferente de você.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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