Goiânia – Fui estratégico e deixei para assistir ao filme Junho – O mês que abalou o Brasil de João Wainer, na sexta-feira, que precedeu o pleito de primeiro turno. Minha intenção era ver o quanto daquele movimento de insatisfação amorfo seria refletido nos resultados eleitorais. Outros articulistas perceberam ecos. Não penso da mesma forma.
O documentário produzido pela Folha de São Paulo mostra como o início das manifestações, que se pautavam pela mobilidade com foco principal na contrariedade ao reajuste da passagem, ganharam aquele ar de “não aceitamos nada que está aí”. Da cruel repressão policial ao lavar de mãos feito pelas autoridades para a quebradeira, do começo com pauta definida até desembocar ao ato de reivindicação contra tudo. O filme vai recapitulando, dia após dia, a transformação da movimentação popular, o novo olhar da mídia que se reposicionou no meio do processo e a chegada da Copa das Confederações como cereja do bolo.
Entre a narrativa bem amarrada pelo roteiro, jornalistas, intelectuais e partícipes dos protestos prestam depoimentos sobre o que ocorreu. Em uma dessas falas, uma reflexão pertinente: não há segmento algum satisfeito com o caminho trilhado pelo Brasil. Da extrema direita à extrema esquerda, do ruralista ao ambientalista, do playboy de Higienópolis ao mano da quebrada. O poder público não consegue deixar ninguém feliz com seus atos. Dessa insatisfação ampla, geral e irrestrita chegamos às eleições de 2014.
Se percentualmente a renovação de nomes pode até ser considerada alta para a Assembleia Legislativa (60%) e das vagas do Congresso Nacional reservada aos goianos (50%), quando vamos nos atentar efetivamente ao quem é quem, percebemos que essa renovação não é tão renovadora assim. Se formos retirar dos chamados novos nomes quem já havia exercido mandato anteriormente ou é parente de figurão e foi eleito por conta da estrutura política repassada como herança, 2013 reverberou pouco (nada?) nas urnas goianas.
Caso façamos a análise da eleição majoritária, certamente não podemos afirmar que Ronaldo Caiado eleito senador e a disputa de segundo turno entre Marconi Perillo e Iris Rezende sejam fatos novos. Da mesma forma nacionalmente, onde segundo turno entre PT e PSDB é piada repetida desde 2002.
É bom assistir Junho justamente para que não nos esqueçamos do que levou milhões às ruas e que, aparentemente, ainda não foi resolvido – a distância entre a dinâmica do Estado com as demandas dos setores da sociedade, sejam eles de qualquer linha ideológica, classe social ou condição intelectual.
O mundo gira e voltamos para o mesmo lugar – a única diferença é que retornamos ao ponto de partida um ano mais velhos. E mais cínicos. E mais indiferentes.