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Nossa civilidade no lixo

12.11.2014 - 14:22:05
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Goiânia – A prova cabal de que por essas bandas deixamos de ser humanos é a organização das torcidas na final da Copa do Brasil, o jogo entre os rivais belo-horizontinos Atlético e Cruzeiro. A primeira partida da decisão acontece hoje (dia 12/11) na capital mineira e teremos somente a torcida do Galo nas arquibancadas do Estádio Independência. No jogo de volta, 90% dos presentes vestirão azul no Mineirão – 10% da carga total dos ingressos será destinada aos atleticanos. Esse fato é a bala de prata no coração do último resquício de humanidade que ainda tínhamos no Brasil. Está decretada a falência do brasileiro como ser humano.
 
Não poder dividir o mesmo espaço de contemplação futebolística por ser do time oposto é o fim da picada. Mostra que a intolerância venceu a razão, a barbárie venceu a civilidade, a estupidez venceu a cordialidade, o ódio venceu o bom senso.
 
É, Belchior, eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos velhos. Estou mais angustiado que o goleiro na hora do gol, tal qual o nobre compositor cearense. Nós perdemos. Nós que assistíamos aos clássicos com estádios divididos ao meio, com a arquibancada cheia de cores que representam os clubes rivais, com cânticos e provocações de um lado e a resposta imediata do outro. Hoje, isso parece coisa de outro mundo. É algo extinto, que só habita nossa memória ou prateleiras de museus ao lado de itens como máquina de escrever, lamparina e a formação original do Guns n' Roses.
 
Onde que a vaca foi para o brejo? Até a primeira metade dos anos 1990, eu assistia aos clássicos entre Goiás e Vila Nova ao lado de torcedores rivais, com a camisa do time e tudo mais. A divisão existia somente no lado oposto as cabines de rádio no Serra Dourada. Do lado do amendoim, tudo era lindamente misturado. O cordão de isolamento é a prova de que não evoluímos tanto assim, Darwin. Afinal, desde os primórdios o homem continua fazendo o que o macaco fazia, Titãs.
 
E impressiona a normalidade que encaramos o fim de nossa civilidade. Banalizou ao nosso olhar a impossibilidade de convivência pacífica. E o que mais estranha é que, em outros ambientes, a presença de torcedores rivais não incomoda, Na escola, universidade, trabalho, boteco, igreja e padaria conversamos e fazemos piadinhas com o time do conhecido. No estádio, no meio da massa, dentro da turba, liberamos aquilo de pior que habita nosso peito.
 
Como é que fico agora? Eu, que criticava essa geração de agora criada a base de futebol europeu? Começo a ficar com vergonha do que dizia. Como culpar o moleque por assistir jogo gringo quando ele não pode frequentar o estádio brasileiro com segurança? E o que é pior: sequer pode ir nos grandes clássicos quando o rival é o mandante. Para assistir pela televisão, julgando só o espetáculo da bola rolando, o jogo europeu é melhor mesmo, já que os maiores jogadores do mundo estão nos campos de lá.
 
Matamos o futebol brasileiro, assumimos nossa bestialidade e nem nos demos conta disso. Triste, muito triste…
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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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