João Gabriel Freitas
Passavam poucos minutos depois das 14 horas do sábado da
semana passada (29/10), quando atravessei as imponentes palmeiras que, assim
como o Castro’s Park Hotel ao qual adornam, completam 25 anos nesta segunda-feira
(7/11). O objetivo era conferir o conhecido “estilo Castro’s” mas, convenhamos,
o foco daquele dia já tinha o interesse principal – a elogiada feijoada do
hotel.
Não é por menos. Como bem me explicou posteriormente o coordenador da cozinha Vilmar Florentino, com 25 anos de casa e o primeiro a assinar carteira de trabalho no hotel, em 1986, “A feijoada se manteve todos esses anos como um de nossos carros-chefe”, ressaltou. Cadastro feito sigo antes ao quarto, para o ritual particular de desabar na cama King Size, povoada de inúmeros travesseiros, e ali repousar por poucos minutos, antes de contemplar as papilas gustativas.
No saguão, diante de partes diversas do porco em potes, me deparo com a delegação do Internacional, que no dia seguinte enfrentaria o Atlético-GO no Brasileirão. Ainda deu tempo de soltar para o técnico Dorival Júnior um “pega leve amanhã”, mas de nada adiantou (1 a 0 Inter). A presença de times de futebol da primeira divisão no local não é novidade e neste ano, a própria seleção brasileira hospedou-se no Castro’s.
Saciado, procuro conhecer todas as depedências do hotel. São ao todo 11 salões de festas, sendo um deles com capacidade para 500 pessoas – onde inclusive se deu a festa de lançamento do jornal A Redação. No primeiro andar encontram-se salas de leituras e reuniões, saguão de jogos, com mesas de pingue-pongue, bilhar, carteado e onde o karaokê aglomera o maior número de hóspedes. Ao lado, o acesso às três piscinas aquecidas, sendo uma delas com hidromassagem.
Ao circular pelo local, mesmo hospedado pela primeira vez, ressalta uma boa sensação de familiaridade, sobretudo pelo tratamento dos funcionários. “A gente costuma dizer que a principal missão do hotel é a simpatia. Por isso não investimos no atendimento”, explica o gerente de marketing Saulo Borges. “Não tem como ensinar uma pessoa a ser simpática. No momento da contratação, procuramos quem já se encaixa no perfil, quem é receptivo, e posteriormente fornecemos o treinamento”, afirma Saulo.
Ao todo, são 165 funcionários, sendo que apenas os da segurança são terceirizados. Com os estagiários, chega-se a quase 200 trabalhadores envolvidos em atividades diversas. No contato inicial do cliente, com a recepção, cobra-se a exigência de domínio de pelo menos duas línguas estrangeiras (inglês e espanhol). A cada 3 meses, uma empresa nacional de consultoria de recursos humanos (RH) promove uma análise, para apontar possíveis carências e reoxigenar o atendimento.
Nesses 25 anos de história do Castro’s, mudanças foram inevitáveis. A iluminação, originalmente composta por abajures, teve total reajuste, com reforma de todos os quartos e a instalação de luzes indiretas nos tetos. O piso original também foi alterado para o porcelanato. “Algumas coisas foram atualizadas” afirma Saulo Borges, mas o saguão de entrada, com o balcão e mesas originais, asseguram a personalidade originária do prédio.
A cozinha constituiu um universo à parte. Praticamente todos os itens servidos no Castro’s são produzidos ali – dos pães do café da manhã ao preparo das carnes. Apenas um item do cardápio precisa ser adquirido fora: a pamonha. Todo o resto é feito por uma equipe de 29 funcionários, que atendem 24 horas.
Primeira carteira de trabalho
É no local que encontra-se o primeiro funcionário do Castro’s a assinar uma carteira de trabalho. Vilmar Florentino começou a trabalhar no hotel logo no primeiro mês de funcionamento, em 1986. Na época, tinha 25 anos e começou a trabalhar como saladeiro. Hoje atua na coordenação da cozinha, depois de passar por praticamente todas as funções ali dentro. Enumera que já foi confeiteiro, padeiro, açougueiro, auxiliar de cozinha e cozinheiro.
Vilmar diz carregar uma verdadeira família ao lado dos outros 28 funcionários da cozinha. Ele relembra toda a evolução dos pratos. “O que se manteve foi nossa feijoada, que segue como um dos carros chefes”, afirma. Com certo ar nostálgico, relembra os festivais culinários que eram realizados praticamente a cada final de semana, um ano depois da abertura do hotel, e que não vingaram comercialmente. “Eram festivais de queijos, bacalhau, lagosta, só coisa boa. Infelizmente foram encerrados”, conta.
O coordenador da cozinha conta com orgulho do processo de formação dos profissionais internos. “O Cláudio Fontinele, que é hoje nosso chefe da noite, chegou do Piauí, só com uma mochilinha. Nosso chefe geral, o Valdesson Ferreira, veio do Pará e também começou de baixo. Todos receberam apoio do hotel, fizeram cursos, se formaram na Cambury”, afirma.
Jantar e vinhos
No jantar de sábado à noite, a variedade de pratos atraía não somente aos hóspedes, mas também moradores de Goiânia. A clientela regional, conta Saulo Borges, é comum. Na noite desta segunda-feira a celebração do ¼ de século será ainda mais requintada. O aniversário reservará um jantar harmonizado com vinhos, coordenado pelo somelier goiano Eugênio Jardim, que atualmente mora nos Estados Unidos. Antes, haverá uma degustação de vinhos californianos raros, escolhidos por Eugênio, somente para os 25 principais clientes do hotel.
Retirante
Chefe geral da cozinha do Castro’s, Valdesson Ferreira, com 30 anos de idade completados domingo (6/11), não esperava atingir posto tão alto quando deixou Redenção do Pará e veio para Goiânia, com 19 anos, acompanhando a mãe, que havia se divorciado. Tinha estudado então apenas até a 4 série do ensino fundamental trazia junto a esposa e uma filha de dois anos, quando passou a trabalhar no hotel no dia 6 de julho de 1994, recorda-se. “Foi o meu segundo serviço em Goiânia e nem sabia direito onde era um hotel. Preenchi uma ficha do outro lado da rua e me chamaram”, conta. Começou exercendo a função de Stuart (serviços gerais), e também passou por praticamente todas as funções ali dentro. O percurso até atingir o posto mais alto na cozinha não foi fácil. “Chegava cedo e era um dos últimos a sair. Isso direto, em finais de semana, datas comemorativas, mesmo com a família cobrando presença. Mas a empresa foi oferecendo oportunidades e fui aproveitando. Foi mérito dos dois lados”pontua.
O talento para a os temperos é antigo. “Mesmo quando no Pará trabalhava no garimpo, depois em fazenda, sempre cozinhei. Acho que daí já vinha uma certa vocação”, relembra. Ele também aponta mudanças nos pratos servidos pelo hotel nesses últimos 10 anos. “Antes os pratos eram mais pesados, com maionese, creme de leite. Hoje segue-se a tendência mundial de pratos mais saudáveis, leves.”
Hoje, pai de três meninas, Valdesson participa de cursos e promove conferências de culinária com frequência. Talvez pela origem paraense, diz ter como preferência trabalhar com peixe. “Gosto de pescar, de fazer um preparo na beira do rio, é um prato bom de trabalhar”, conta. O jantar de sábado à noite, com pelo menos três opções de peixe, do filé ao vinho branco à muqueca, comprovava o cuidado.