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O ocaso de um gênio

02.12.2014 - 12:07:29
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Goiânia – Em uma comunidade de Facebook que participo, em homenagem à finada revista Bizz, está em debate uma entrevista que Júpiter Maçã (ou Apple, ou Flávio Basso – estamos falando da mesma pessoa) concedeu a Rogério Skylab. O programa Matador de Passarinho é da grade do Canal Brasil e foi ao ar no final de novembro. Para quem é fã do cara, como eu, é deprimente. A tristeza de ver alguém que admiro e sinceramente considero gênio naquele estado deplorável é grande.

Não é a primeira vez que Júpiter me provoca esse sentimento. Em 2007, na 13ª edição do Goiânia Noise, o show do gaúcho no Centro Cultural Oscar Niemeyer me trouxe uma enxurrada de emoção. Estava em um momento mais sensível da vida, onde as dúvidas se mostram mais desafiadoras e o eterno embate entre o racional e a vontade descerebrada está mais aflorado.

O show foi uma derrota sem fim. Júpiter errava tudo. A banda estava mal ensaiada. Eu vendo ali as músicas que amo destruídas, o cara que admiro claramente com sérios problemas e, como grand finale, minhas incertezas me corroendo internamente. Um poderoso mix para alguém fragilizado. Na hora da música Beatle George, que no set list foi emendada com Síndrome do Pânico, não contive as lágrimas.

O conflito se deu também por eu já ter visto Júpiter em alto nível. Logo depois do lançamento de seu segundo disco, Plastic Soda, em 1999, ele se apresentou em Goiânia no saudoso e lendário Garage Café. O show de mais de três horas terminou às cinco da manhã com uma versão insana de My Generation do The Who, instrumentos jogados no chão do palco e Júpiter perguntando para a plateia quem poderia levá-lo ao aeroporto pois ele já tinha voo marcado para logo mais. Inesquecível.

Meu caso com Júpiter foi de amor à primeira ouvida. Na faculdade, alguém descolou seu primeiro disco, A Sétima Efervescência, e gravei uma fitinha cassete que tocou muito em minha casa. Era impactante demais. Mutantes com Raimundos. Raul Seixas com afetação gaúcha. Beatles com sacanagem. Uma mistura deliciosa.

Não gosto da fase Jupiter Apple. Os dois discos em inglês não me emocionam. A força do texto me diz muito, como confirmei em seu quinto disco, Uma tarde na fruteira. Abrindo mais para a música brasileira e fazendo de suas letras uma sessão de psicanálise, Júpiter novamente me arrebatou.

Por isso a tristeza de vê-lo decadente e sem poder de encadear as ideias na entrevista para Skylab. E o mais impressionante é depois assistir a entrevista que o artista concedeu ao jornalista Luiz César Pimental do R7. Com poucos dias de diferença, nesse segundo caso ele já parece bem mais lúcido e ciente do que está falando e fazendo.

Como fã, torço para que o futuro de Júpiter seja mais com a cara do vídeo do R7 do que do Canal Brasil. O mundo, ao menos o meu mundo, ainda precisa de suas ideias sacanas e suas músicas fantástica. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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