A Redação
A meta de captar R$ 10 bilhões de investimentos em 2011 foi ultrapassada
com dois meses de antecedência, afirma o secretário estadual de
Indústria e Comércio (SIC), Alexandre Baldy, em entrevista concedida ao
jornal A Redação. O balanço parcial dos 10 meses de 2011 esteve
entre os assuntos abordados pelo secretário, que não se furtou a
responder assuntos econômicos ou meramente políticos.
Ao tratar sobre a atual crise financeira, classificada como “o segundo
mergulho da pior crise financeira da história”, Baldy encara o momento
como uma oportunidade das empresas brasileiras, em especial as goianas,
de se internacionalizarem – seja entrando com capital ou mesmo comprando
empresas estrangeiras, sobretudo gregas e italianas. Empresário
anapolino e tucano recém-chegado ao ninho, o secretário preferiu não
cravar seu nome para as disputas eleitorais de 2012, mas não poupou
críticas duras ao atual prefeito da cidade, Antônio Roberto Gomide (PT)
“Ele resolveu problemas superficiais. Só os superficiais”, disse.
Confira abaixo trechos da entrevista concedida pelo secretário.
Crescimento industrial do Estado:
Alexandre Baldy – A indústria goiana cresceu substancialmente,
sobretudo pelos programas de fomento e financiamento. Quando sentamos
com empresas no início do ano, para mostrar seriedade, conseguimos
mostrar que Goiás seria a melhor opção para se consolidarem. O que
estamos comemorando é que em 10 meses conseguimos captar R$ 10 bilhões,
que era o objetivo do ano todo. O que vier a mais divulgaremos no final
do ano, mas será lucro. O objetivo foi cumprido. O setor automotivo,
investiu quase R$ 1,5 bilhão com Mitsubishi, Suzuki e a própria Hyundai,
que investiu bastante. O setor farmacêutico teve investimento de quase
R$ 1 bilhão; o aeronáutico, de aproximadamente R$ 1,2 bilhões. Isso sem
contar projetos sucroenergéticos, com aproximadamente R$ 3 bilhões de
investimento.
Balanço das missões do governo no exterior
Alexandre Baldy –Nestas viagens conseguimos fechar, por exemplo,
com a Rekkof, na Holanda. Na China, assinamos um tratado de
beneficiamento e investimento da soja e cooperação do parque
tecnológico, além de outros projetos que ainda não podem ser divulgados
pois estão em negociação.
Crescimento desequilibrado das regiões goianas
Alexandre Baldy – O crescimento ainda é desequilibrado quando
tratamos do Nordeste do Estado. No momento, estamos pleiteando
incentivos federais para toda a região Norte. Conseguimos para a
implementação da Bionasa, (empresa de biocombustível instalada em
Porangatú), e toda região por onde passa a Ferrovia Norte-Sul será
beneficiado. A maior preocupação é mesmo o Nordeste goiano, pois não a
região não tem uma vocação industrial definida e nem um eixo logístico
que facilite o escoamento. Estamos pensando em um projeto de
reflorestamento, ligado à exploração da celulose. Mas isso é projeto a
longo prazo.
Incentivos para energia limpa
Alexandre Baldy – Todo o setor sucroenergético conta com
escalonamento de incentivo fiscal, que é o Produzir. As indústrias de
cana têm o maior desconto, que é o CP-4 incorporado ao incentivo fiscal,
desde que elas sejam cogeradores de energia. Isso possibilitou, por
exemplo, a instalação da Indústria Boa Vista, em Quirinópolis, que será a
maior sucroenergética do planeta. Eles vão moer, só lá, 8 milhões de
toneladas de cana, e vão triplicar a produção de energia.
Posição frente à crise mundial
Alexandre Baldy – Tudo isso estamos falando em meio ao segundo
mergulho na pior crise econômica mundial dos últimos anos, uma crise
que afeta sobretudo o crédito. A (indústria) média e pequena tem sérias
dificuldades de acesso ao crédito. Então elas trabalham também com os
que chamamos de “médium banks”, que vivem da captação internacional. Se
você pega os pequenos e médios bancos eles vivem basicamente da captação
dos grandes bancos internacionais, para depois emprestar para médias e
pequenas empresas, que não tem tanta facilidade junto ao BNDES (Banco
Nacional do Desenvolvimento). Goiás não é tão afetado pois tem o FCO
(Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste), que ajuda
sobremaneira. Neste ano foram quase R$ 1,5 bilhão, para viabilizar
projetos industriais, sendo 51% obrigatoriamente destinados às micro e
pequenas empresas.
Internacionalização do capital
Alexandre Baldy –Na minha visão, o momento é o oportuno para
empresas goianas e brasileiras saírem às compras das empresas européias,
que precisam de capital. Elas (as internacionais) também tem
dificuldade de captar recursos dos bancos médios e grandes. Quem hoje
fomenta o crédito na Europa são os Bancos Centrais. Lá não se tem um
BNDES como se tem no Brasil e o acesso ao crédito também é bem restrito.
Trata-se, então, da oportunidade das empresas brasileiras se
internacionalizarem, comprando empresas européias. Na Grécia é um
momento fantástico, na Itália nem se fala. Espanha e Portugal também
devem entrar nessa situação, pois o governo não vai ter condições de
bancar a crise do setor bancário, pois se expuseram demais em 2008,
gastaram muito achando que seria definitivo. Então vão procurar
parcerias fora ou até mesmo a venda. A China está sabendo aproveitar
muito isso, tanto que para poder viabilizar qualquer empréstimo está
exigindo ser reconhecida como economia de mercado e abertura maior de
mercado para produtos chineses. Está usando a moeda: ‘Temos aqui 3
trilhões e meio em caixa para poder ajudar. Então 200 milhões, 300
milhões para nós não é nada, mas quero que abram as portas’. Esse vai
ser, para mim, o famoso “x” da questão. Um crescimento menor da China,
até 7% ou 7,5%, não afeta em nada o resto do mundo. Agora, se ela
crescer menos que isso, ela prejudica o crescimento global.
Guerra fiscal entre Estados
Alexandre Baldy – O governo do Estado se empenhou muito para
evitar transtornos judiciais. Fizemos grupo de trabalho, reunimos com
escritórios, com a Receita Federal, com várias companhias grandes e
articulamos um trabalho intenso em cima dos governos do Centro, Norte e
Nordeste, no Congresso Nacional e principalmente no Supremo Tibunal
Federal. O supremo se sentiu acuado em julgar essas matérias relativas a
incentivos fiscais e conseguimos impedir uma reforma tributária
simplificada que o Governo Federal articulava. Impedimos todos os
assuntos em termos de incentivos fiscais que fossem prejudiciais aos
Estados incentivadores. Isso dá a segurança de que, ainda este ano, os
incentivos industriais serão convalidadeos.
Reclamação paulista
Alexandre Baldy – Especificamente com São Paulo, hoje o Estado se
desendustrializa por vários aspectos. No aspecto imobiliário, quanto ao
valor, é quase impossível a comparação. Isso sem contar o excesso de
sindicalismo, o custo efetivo da força de trabalho. São Paulo se
desendustrializa não apenas pelas razões fiscais. Goiás compete hoje não
com São Paulo, mas com outros Estados em desenvolvimento, como
Pernambuco, Bahia, Santa Catarina e Paraná. São poucos e nós ganhamos,
tranquilamente. O maior medo do governo pernambucano é que aprovemos os
incentivos da Sudeco, como tem os da Sudam e Sudene. Se conseguirmos
isso, nós não temos competição.
Filiação no PSDB e eleições 2012
Alexandre Baldy – A única política que faço hoje é de Estado, de
fomento, financiamento. Não tenho nenhum planejamento, diálogo para
candidatura. Obviamente, qualquer pessoa que vai para o poder público,
ocupa a função de uma pasta e consegue êxito , acaba lembrado. Isso é
uma honra para mim. Conseguimos trazer visibilidade para o Estado,
chamamos a atenção, mas não há nenhum projeto de candidatura.
Anápolis e prefeito Antônio Roberto Gomide (PT)
Alexandre Baldy – Já conversei isso até com o secretário do
prefeito Gomide. Ele é o meu maior incentivador. Por que quanto mais ele
me critica, quanto mais ele se preocupa comigo, mas ele demonstra que
eu vou incomodá-lo. Quer dizer, eu não falo em candidatura, eu nunca
anunciei. Só me filiei a um partido, mas fiz isso bem discretamente. Não
fiz ato público. Se ações da secretaria projetou meu nome em Anápolis,
se gerou essas conseqüências, não foi com estas intenções. Todas as
ações que a gente realiza em Anápolis, fazemos também em outras cidades.
Vamos amanhã em Alexânia, realizamos em Piracanjuba, em Jaraguá, e
inúmeras outras. São possibilidades que criamos ao redor do Estado.
Costuma dizer: ‘Ah, levaram a Rekkof (indústria de aviação holandesa)
para Anápolis’. Mas que aeroporto tinha capacidade de receber um
empreendimento daquele? O de Goiânia? Não tem. Anápolis tem o projeto
de, com o Aeroporto de Cargas, pista de 3,4 mil metros, plataforma
logística, sem contar que a área já existia e a cidade ainda era a
escolhida no projeto da empresa. Era o único lugar do Estado hoje para
ter um projeto dessa envergadura. Não precisamos gastar um centavo a
mais para colocar a empresa naquele lugar.
Projetos locais
Alexandre Baldy –O Aeroporto de Cargas está travado hoje no
Tribunal de Contas. A intenção é destravar isso o mais rapidamente, mas
não depende só da nossa vontade, foram encontradas diversas
irregularidades. A plataforma logística também estamos buscando uma
solução rápida, mas também depende do aeroporto de cargas. O anel viário
do Daia vamos começar, se tudo der certo, em janeiro, para dar uma
solução, aos menos provisória, para a vida do anapolino. A expansão do
Daia, em pelo menos quarenta alqueires, está sendo estruturada e,
principalmente, o Centro de Convenções, que será o maior do
Centro-Oeste, projeto que a Federação da Indústria doou para o governo
do Estado e será diferenciado.
Avaliação da administração municipal de Anápolis
Alexandre Baldy – A avaliação que faço do prefeito Gomide é boa.
Ele resolveu todos os problemas superficiais da cidade. Superficiais.
Agora, saúde, como está em Anápolis? Educação? Não teve cuidado nenhum
com setores estruturais. A prefeitura, junto ao Daia, são mundos
completamente distintos. A prefeitura não cuida do asfalto do Daia, não
paga a energia do Daia, não faz o saneamento básico, não faz nada, zero.
E ainda quer cobrar o IPTU do Daia. Vai cobrar o IPTU do quê? Não fez
nada. Anápolis teve péssimos prefeitos nos últimos 20 anos. Era muito
ruim. Então qualquer trabalho que fizesse é reconhecido. É um cara bom,
que tem boas intenções, mas projetos superficiais. A cidade precisa de
planejamento, cuidar de problemas estruturais. Proporcionalmente,
Anápolis é o melhor município para ser administrado do Estado. Tem uma
arrecadação de quase R$ 1 bilhão por ano, e de quase 330 mil habitantes.
A arrecadação per capta é fantástica.
De empresário para a vida pública
Alexandre Baldy – Estou gostando. É bastante burocrátiro (risos).
Mas é um desafio interessante pois são problemas positivos, que vão
ajudar a desenvolver. O gostoso disso é que você enxerga que vai deixar
um legado. O dia que passar na porta de uma empresa e ver lá mil pessoas
trabalhando e pensar, nossa, isso aqui a gente tratou desde a estaca
zero. São projetos que, assim, você trabalha muito mais que na
iniciativa privada, e você não é dono do seu tempo, mas assim, é
gratificante. Eu não tenho os vícios do poder público e minha visão é de
tentar transformar alguma coisa. A gente trabalha para gerar
emprego.