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A tradição do ‘trote’ aos ‘caloiros’

18.11.2011 - 08:46:22
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Semana passada as salas de aula estavam vazias. Uma professora adiou prova, outro pediu para que eu deixasse a apresentação do meu trabalho também para “pá” semana. A razão foi uma só: semana dos caloiros. É, caloiros, não é calouros. Ela estava dentro do que chamam de praxe. Podem entender como trote, mas vai além. Daí que deve ter passado pela sua cabeça: nossa, mas suas aulas não começaram em setembro? Pois é, a praxe aqui é sem fim! Quando eu vi que estava durando duas semanas, achei muito, mas aí me disseram que semana passada era o grande ápice. Aí termina, né? Não! Minha colega disse que até maio do ano que vem haverá praxe, quando os caloiros deixam de ser caloiros.

Mas, de fato, essa foi a grande semana. De terça a sábado houve festa no maior espaço de eventos aqui com shows de bandas mais conhecidinhas. “Não se dorme”, disse minha colega quando me contou, há umas três semanas, sobre o evento.  Na quinta eu a encontrei na faculdade, às 11h, correndo para aula. Tinha chegado em casa às 7h. Até maio uma quarta ou outra haverá praxe. “Mas são mais leves, vão jogar só ovo, farinha, essas coisas”, contou Alexandra, minha colega caloira. Ela quis dizer que são mais leves porque essa semana houve o tribunal. Como parte final mesmo. Jogaram nos caloiros tripas de animais, tiveram que rolar na lama e lamber cabeça de vaca . Ah, isso à noite, quando a temperatura está entre 4º a 6ºC.

Mas a coisa aqui é levada muito a sério. É uma hierarquia sem fim (os veteranos são chamados de doutores) e são rituais e mais rituais, até se formarem. De cara, o que mais chama atenção é a vestimenta. Sim, os doutores têm um figurino próprio e quando vimos, pensamos: como assim? Harry Potter? São vestes iguais a dos alunos de Hogwarts. E fiquei sabendo que não foram eles que se inspiraram no Harry, mas o contrário. No Porto, próximo daqui, a tradição é a mesma, assim como a veste. A autora do livro, J. K. Rowling passou um tempo de sua vida na cidade antes de escrever a ficção. Disseram-nos que ela se inspirou nas roupas de praxe para pensar a roupa dos bruxinhos.

Na capa que usam há vários brasões costurados: da família, do curso, da cidade, etc. E o bacana é que a maioria eles ganham: da avó, da mãe, do irmão, da namorada, da amante e tem lá registrado “da mana”, por exemplo. Desfilando por aí que já não são mais caloiros e exercem algum poder sobre os “putos” recém-chegados à universidade, eles esculacham e sacaneiam os pobrezinhos. No início, não achei graça nenhuma. Porque no nosso trote, é bem verdade que são sacanas e até maldosos, mas há muito humor, graça, risada. As primeiras praxes que vi, os doutores falavam gritando, bravos, batiam e não deixavam ninguém rir.

Achei um absurdo, não via graça nenhuma nisso. Até que conversando com alguns colegas meus caloiros, vi que eles achavam o máximo. E eu fiquei os questionando se não achavam muita sacanagem, se não se sentiam humilhados. Manoel rebateu dizendo que é uma excelente forma deles (caloiros) se conhecerem e estabelecerem relações com seus veteranos. Contou-me que além das sacanagens, havia as competições culturais, as apresentações artísticas que deveriam fazer e por aí vai. Mas a Alexandra disse que gosta mesmo é da praxe suja, que essa coisa de ovo e farinha não tem graça, ela curte o trash mesmo.

Bom, comecei a rever meus conceitos e há um mês, mais ou menos, resolvi ir à recepção aos caloiros e aos Erasmus no teatro de arena do IPB. Achei incrível! Todo o espaço tomado, organizadamente, pelas escolas. A Saúde numa ponta, ao lado da Educação, a Escola de Mirandela ao meio, ao lado a Agrária e por fim a de Tecnologia. Cada escola vestida com sua camiseta, com gritos de guerras ensaiados e o melhor: ninguém grita ao mesmo tempo, apesar do clima saudável de rivalidade. Educadamente, uma Escola manda a outra tomar no c*, sem se atropelarem. Os coordenadores de cada Escola estão lá para receber os alunos, o presidente da Associação de Estudantes, o reitor e depois de todas as falas, uma apresentação de fado. Típico.

Acho lindo como os estudantes se envolvem, cantam juntos, ainda que seja uma música mais lenta para o momento (no Brasil estaria rolando algo frenético, provavelmente). E, depois que cada escola entoou seus gritos, separadamente, todos cantam juntos: “É IPB, É I-P-B”. Nota-se a alegria dos caloiros de, finalmente, estarem ali. E nos doutores, o orgulho de estudar no Instituto. Nas noites nos pubs e boates, do nada, toca-se uma paródia de “Amigos para Sempre” com essa letra e todos se abraçam e cantam emocionados. É muito engraçado.

Para encerrar o dia de recepção, um churrasco com chopp Super Bock na universidade. Sério. A intenção é, realmente, apesar das sacanagens, fazer os caloiros bem vindos. Sinal da relação estreita que vai se criando, eu vi semana passada. Meus colegas conversavam e fiquei prestando atenção (ou gansando mesmo). “Já comprei a fita e o papel. Tudo vai ficar 10 Euros”. E aí Manoel e Clara foram me explicar: agora, ao fim da praxe, eles devem dar um presente ao seu padrinho ou madrinha. Uma carta, num papel especial, com uma fita bonita. Clara me contou que eles, até agora, não só lhe sacanearam, mas ajudaram também nesse processo de início de vida acadêmica.

E aí sábado fui assistir ao batismo desses meus colegas. Nesse climinha de 9º, eles foram batizados pelos padrinhos. Jogam baldes e baldes d’água, cerveja, e pronto, estão batizados. (Veja vídeo aqui). Um por um, ou seja, dura uma tarde toda. E, de fato, achei legal a relação que se cria entre caloiros e doutores. Até fiquei com uma vontadinha de passar por esse processo. Os pais estão presentes, amigos, avós e cantam juntos os gritos de guerra da Escola. Imagino que alguns, há uns anos, devem ter passado pela mesma escola, cantando mesmos gritos.

Bom, na verdade são N rituais, processos que nem tenho gabarito para contar. Mas, de fato, me tocou e ganhou minha admiração a tal da praxe e a atenção que dão para esse processo da vida: entrar numa universidade. Tenho certeza que meus colegas Clara, Cristina, Alexandra e Manoel nunca vão esquecer desse momento. E nem eu.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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