Depois de assistir à entrevista concedida pelo ator Reynaldo Gianecchini ontem, à Patrícia Poeta, no Fantástico, fiquei morrendo de vergonha. Não dele, mas de mim mesma. Ver aquele homem sereno e sorrindo, apesar de todos os efeitos colaterais trazidos pelo tratamento do câncer e da perda recente do pai, foi um tapa na cara.
Até ontem, achei que eu tivesse tido uma semana difícil. Aliás, uma semana do cão. De segunda a sábado, me peguei praguejando dezenas de vezes, resmungando e me sentindo injustiçada por Deus. Orçamento apertado, rotina insana de trabalho e desencontros familiares e afetivos eram a causa do meu “sofrimento”.
Quando vi o ator que sempre considerei um dos mais lindos do Brasil totalmente careca e fragilizado, com a carreira interrompida e a ferida da morte do pai – ironicamente também acometido pelo câncer – ainda aberta e pulsante, afirmar que não se queixava da vida porque havia problemas piores que os dele, eu quis sumir.
Graças à sua serenidade e maturidade, Gianecchini conseguiu perceber que, de fato, há gente mais sofrida que ele. Gente que também tem doenças graves, mas não possui dinheiro para se tratar. Gente que descobre o câncer num estágio mais avançado e agressivo e dispõe de poucas chances de cura. Gente que não tem fé nem esperança.
Graças ao seu equilíbrio, o ator se deu conta de que tudo na vida tem dois lados, e que a mesma doença que o privou da beleza, do vigor físico e do trabalho que ele tanto adora, também mostrou como ele é amado e respeitado pelo público; como milhares de pessoas em todo o País torcem por sua recuperação.
A única vez que o ator chorou durante a entrevista não foi de tristeza, mas de alegria. Ele não segurou a emoção ao se lembrar da quantidade de gente que tem lhe coberto de mensagens positivas, de carinho e desejos de melhora. E sussurrou, com a voz embargada: “Um dia eu ainda vou conseguir retribuir tudo isso”.
Saí de perto da TV morta de constrangimento. Me senti tão pequena e tão medíocre… Comecei a pensar como somos egoístas e, principalmente, como saímos totalmente do eixo por tão pouco. Pensei no quanto coisas tão passageiras e banais conseguem nos fazer desgostar da vida e nós mesmos.
Quando o dinheiro falta e as contas sobram, infelizmente o nome vai para o SPC. Não é a melhor coisa do mundo, mas nunca vi ninguém morrer por isso. Se levamos um fora e a relação acaba, ficamos mal alguns dias, mas reagimos, porque ninguém nasceu grudado com ninguém e relacionamentos não têm certificado de garantia.
Se a gente bate o carro ou leva uma fechada no trânsito, fica com raiva, mas segue em frente. Quando brigamos com o pai, a mãe, o irmão, o marido, o namorado ou os filhos nos desgastamos, mas escapamos vivinhos da silva, porque não há quem consiga conviver proximamente sem atrito. Faz parte.
Na verdade, enquanto estamos reclamando e xingando é porque a coisa não é séria. Quando fazemos tempestade num copo d’água, é sinal de que é bobagem. Pela simples razão de que as tempestades verdadeiras – e nesse caso incluo as perdas irreparáveis, os sofrimentos intensos – não cabem num copo d’água.
Quando a tempestade se abate sobre nós, ela é tão imperativa, tão absoluta, que não dá tempo para lamentos. Obriga a gente a tirar lá do fundo o instinto de sobrevivência e agir rápido. Nos leva a reavaliar a vida sob uma outra perspectiva e a ver, o que de fato e, em essência, realmente importa.
Não se trata de reprimir o sofrimento ou ficar alienado. Trata-se de dar a cada problema a sua real proporção, a sua devida (ou falta de) importância. Porque a gente faz drama demais por coisas de menos. Amplificamos nossa tempestade num tal nível, que ela acaba se transformando num tsunami.
Uma amiga muito querida me ensinou um truque legal para dimensionar os “dramas” diários. “Sempre que você se aborrecer, pergunte que diferença isso fará na sua vida daqui a dez anos. Se a resposta for nenhuma, então pare de ficar chateada, porque você está sofrendo por bobagem”.
O câncer raro de Gianecchini fará enorme diferença na vida dele em dez anos. O tratamento de agora é crucial, inclusive, para determinar se ele estará aqui na próxima década para contar essa história de superação. Mas enquanto a cura não vem, ele se transforma, muda seus valores e afirma que está aprendendo a valorizar o presente.
Lembro de um trecho do livro Kafka à beira mar, do escritor Haruki Murakami, que diz: “(…) E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”
Sofrer sim, mas pelo que é inevitável e irremediável. E deixar-se transformar pelo sofrimento, enxergando o que ele gerou de perdas, mas também de ganhos. Porque descobrir que as pessoas te amam mesmo doente, sem cabelo, sem força e sem glamour é um prêmio e tanto. Gianecchini, quando eu crescer quero ser igual a você.