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A educação maquiada

12.03.2015 - 13:55:30
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Goiânia – Estou remoendo algumas coisas há alguns dias. Tinha prometido a mim mesma escrever essa semana sobre gramática pura, mas um assunto atual me fez adiar os planos.
 
Trabalhei nas três esferas públicas, durante quase vinte anos, e sei da importância que se dá em qualquer governo a dados, estatísticas, planilhas e “resultados”. Em busca de uma posição melhor em um ranking, muda-se, inverte-se, ameniza-se e manipula-se qualquer informação.
 
Na educação, essa maquiagem é, na minha opinião, praticamente criminosa. Não dá para acreditar, por exemplo, que, com toda precariedade do ensino público, o Brasil tenha apenas 8% de analfabetos.
 
Os analfabetos funcionais não entram na estatística. E eles são um quarto da população. Nas universidades, correspondem a 38% dos alunos. São pessoas que concluíram ensino médio e terão um diploma de curso superior sem ter a menor noção do que isso deveria significar.
 
No Brasil, mais de 70% dos cursos superiores são ofertados pela rede privada, ou seja,  aluno significa lucro, e vaga, prejuízo. Por isso existem os vestibulares de fachada, os cursos meia-boca e os alunos copia-e-cola. Por que o que importa é receber o dinheiro, emitir os diplomas e engordar as estatísticas.
 
Falei tudo isso para comentar sobre o Fies  e  sobre a liminar da Justiça de Alagoas que derruba, em âmbito estadual, a portaria do MEC que exige uma nota mínima no Enem para concessão do financiamento estudantil. Em outras palavras, permite que pessoas inaptas ingressem no ensino superior.
 
No final do ano passado, o MEC determinou que só poderia pleitear o ingresso no programa o estudante que obtivesse, no mínimo, 450 pontos e não tirasse zero na redação, assim como é no Prouni. Foi o suficiente para que as instituições aprontassem uma chiadeira. Calculam que vão perder 20% dos alunos.
 
Se o Fies acabasse hoje, a maioria das faculdades particulares fecharia as portas na mesma velocidade com que surgiram do nada nos últimos anos. Não  interessa selecionar os melhores, ou na hipótese mais simples, admitir apenas os alunos com condições de ter um bom desempenho. As portas estão abertas a qualquer um, não importa a nota.
 
O MEC não criou o Fies com intuito único de ajudar estudantes carentes. O maior objetivo é mostrar ao mundo quantos brasileiros têm nível superior. Muitos, milhões. Mas o preço está muito alto. A saída para cortar despesas sem desgaste é fingir preocupação com o nível da educação, exigir nota mínima e impor outros obstáculos “técnicos” para liberação do financiamento.
 
O governo quer gastar menos, as empresas querem ganhar mais e os alunos querem o diploma. É assim que funciona.
 
Um dos grandes absurdos dessa realidade é um estudante que atinge menos de 45% da nota de um exame de ensino médio querer entrar em uma faculdade. E ainda por cima financiado pelo governo. Quem tira menos de 450 pontos em uma prova que vale mil tem que voltar para a escola, e não seguir adiante.
 
O governo com essa prática de compensar erros passados e investir em ações que dão renome em vez de resultado está afundando a educação cada vez mais.
 
Investir em educação básica de qualidade não dá resultado imediato. Nem voto. O que funciona é Fies, sistema de cotas,  Prouni, Pronatec. Se todos tivessem uma escola de qualidade não precisariam existir essas muletas para falsear índices.
 
Deve ingressar no ensino universitário o estudante que faz jus à vaga, por mérito, por conhecimento, por esforço. Sem privilégio, sem vitimização.
 
Um aluno de uma faculdade particular me disse orgulhosamente que já estava no terceiro ano do curso e não tinha aberto nem um livro. Diante do meu silêncio constrangedor ele emendou: “A faculdade já tá embolsando do governo, estudar pra quê? Eles não vão me bombar nunca”.
 
Saudade do tempo em que os diplomas suados iam para a parede. 
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por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

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