Goiânia – Certa vez disse que uma banda cover é igual a um travesti: parece muito mesmo com o que queremos e gostamos, mas falta o essencial. Ainda penso assim. E por isso me impressiona o atual fenômeno que a noite de Goiânia vive. É cover para tudo quanto é lado, de tudo quanto é estilo. Do pop ao metal. Da música brasileira ao stoner rock. A música autoral está praticamente sem espaço na noite goianiense. E não vejo um futuro muito promissor para quem não quer se camuflar de outro para subir em um palco.
Parcela dos músicos responsabiliza os donos do pub pela onipresença das bandas covers. Não vejo por aí. Conheço e tenho o prazer de ser amigo de quase todos os empresários da noite que abre espaço para a música ao vivo, em especial no segmento alternativo. Todos foram forjados nos festivais autorais de Goiânia. Nenhum, repito, nenhum se orgulha de ter tantas bandas covers em sua grade de programação. Todos sonham em abrir todas as noites para a música autoral. O problema é que sua conta no final do mês não fecha caso faça essa opção.
Outra parte responsabiliza o público. Também não concordo. Compreendo quem sai de casa e quer se divertir. O curador de um pub tem que agradar as pessoas que se dispuseram a gastar seu dinheiro e tempo naquele espaço. Uma coisa aprendi nos anos que trabalhei pesado com produção cultural: nunca culpe o público pelo seu fracasso. Quem paga ingresso para ir a um evento não tem compromisso algum com o sucesso financeiro da noite. Ele vai lá e quer se divertir. Ponto. Ele não é partícipe de sua planilha financeira. Se o cara prefere ver o cover de um clássico do rock à música autoral, fazer o quê? O dinheiro é dele.
Mas esse grande interesse pelo cover me deixa um pouco curioso. Por exemplo, eu gosto muito de futebol. Mais que música, para dar uma dimensão. E não tive oportunidade de ver os grandes jogadores brasileiros em campo por uma questão geracional. Assim como não tive a possibilidade de ver as grandes bandas do rock em seu auge criativo pela mesma razão.
Será que eu gostaria de ver vários bons jogadores da atualidade vestidos como, sei lá, a Seleção Brasileira de 1970, simulando aqueles lances geniais que só vimos pela televisão? Mesmo que os caras atuais fossem muito bons e chegassem perto daquilo que Pelé, Gérson, Rivellino, Tostão e companhia fizeram, acredito que não pagaria ingresso para ver um Brasil/70 cover contra a Itália/70 cover no Serra Dourada. Pagaria para ver esses craques hoje em campo, mesmo que muito longe das performances originais? Sim, pagaria. Igual pago para ver os respeitáveis tiozões do rock exalando agressividade, tal qual um macaco na jaula do zoo, e dizendo que preferem morrer do que envelhecer.
O original, mesmo que longe do auge, ainda permanece com a aura que Walter Benjamin falava. Aura essa que um cover, por melhor que seja, nunca terá.
E qual seria a saída para que a música autoral volte a ganhar espaço, garantir boas bilheterias aos empresários da noite e as bandas covers voltem a ser bregas como eram poucos anos atrás? Não faço a mínima ideia. Se soubesse, falaria para todos meus amigos donos de pubs. Enquanto isso, seguimos curtindo os travestis na noite de Goiânia.