Logo

Canto para minha morte

16.04.2015 - 17:21:57
WhatsAppFacebookLinkedInX

“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”. (Gênesis, 3:19)

Goiânia – É muito provável que entre as primeiras reflexões do ser humano, a partir do momento em que ele tomara consciência de si próprio, a morte tenha estado presente. Afinal, se existe uma certeza para todos os seres que nada sabem, esta é de que haverá um fim.

Apesar de ser assunto tabu, a morte é questão explorada por todos os ramos do conhecimento humano. Freud, por exemplo, ensina que há duas grandes energias em cada indivíduo: a pulsão de vida e a pulsão de morte. Elas estarão juntas, presentes, até o fim físico.

O prazer erótico carrega muito dessa contradição: ao mesmo tempo em que o ato sexual é a maior confirmação física de que estamos vivos, há quem considere o orgasmo como “La petit mort” (a pequena morte). Afeto e violência estão sempre de mãos dadas na cama.

Não por acaso algumas pessoas aderem a práticas arriscadas para aumentar o prazer, como a asfixiofilia (a interrupção voluntária da oxigenação do cérebro durante o ato sexual) e o bareback (o sexo sem proteção, geralmente com desconhecidos).


Observa-se que os povos não ocidentais (em um conceito mais cultural que geográfico) lidem de forma mais amena com a morte. Ainda assim, entre eles estão as maiores manifestações concretas de negação do inescapável fim: as pirâmides do Egito.

No mundo ocidental, ora a banalizamos na indústria cinematográfica e no jornalismo sensacionalista, ora a negamos nos excessos da indústria da beleza e sua promessa de juventude eterna, na apologia da vida saudável e nos infindáveis recursos das indústrias médica e farmacêutica, que muitas vezes transformam a luta pela vida em sofrimento inútil.
 
As grandes religiões têm como maior alicerce o enfrentamento da morte. No versículo 19 do capítulo 3 do livro de Gênesis, o autor sinaliza que a morte é consequência do pecado original – a ambição do homem de se igualar ao divino, ao comer do fruto da árvore do conhecimento.

Em Romanos 6:23 somos lembrados que o “salário do pecado é a morte”. O cristianismo, porém, nos conforta com a dádiva da ressurreição do Cristo.
 

Para o islamismo, a morte significa a passagem para a vida eterna, que será boa ou ruim dependendo das atitudes na experiência terrena. O kardecismo, por sua vez, explica que a passagem corpórea é apenas um estágio evolutivo do espírito – esse, sim, imortal. Também o budismo, que não tem deuses, crê na reencarnação.
 
A preservação da vida, portanto, é prioritária, tanto sob um enfoque moral quanto legal – vide legislações contrárias ao aborto e à eutanásia. Neste segundo caso, a manutenção da vida sobrepõe-se, na maior parte das vezes, ao insuportável sofrimento físico e psíquico de uma doença incurável.
 
Nesse contexto geral de apego incondicional à vida, emerge um personagem controverso: o suicida. Tratado como um pária pelas religiões (não confundindo com o mártir, figura celebrada e santificada), o suicida na maior parte das vezes é visto como um covarde entre aqueles que não têm fé alguma.
 
Busca-se imediatamente, em relação ao suicídio, uma explicação o mais racional possível. Na melhor das hipóteses, o suicida é um doente – e a depressão costuma ser o melhor dos álibis.

Mesmo a romantizada opção pela morte diante do amor não realizado não obtém o perdão social – exceto pelo legado que tal ato pode deixar, como nas imortais (expressão irônica) narrativas de Goethe ou Shakespeare.
 

Diante de tal repúdio à morte, poucas experiências podem ser tão transformadoras quanto a consciência da finitude.  Venha ela por meio da descoberta de uma doença incurável, um acidente do qual escapamos ou da perda de alguém muito próximo. Após tais experiências, é praticamente impossível escapar de uma série de clichês.
 
Viralizou há alguns anos um vídeo no qual pessoas no leito de morte relatavam os cinco maiores arrependimentos. São eles:

1) Não ter tido a coragem de fazer o que realmente queria e, sim, o que os outros esperavam;
2) Não ter trabalhado tanto;
3) Não ter tido coragem de dizer o que realmente sentia;
4) Não ter retomado o contato com amigos e
5) Ter sido mais feliz.

São sentimentos clichês exatamente por serem tão verdadeiros. Concluo, por fim, que a pulsão de vida quase sempre se sobrepõe à pulsão de morte, ainda que, no fim, ela prevalecerá. Como dizia Raul na belíssima “Canto pra minha morte”: “Vem, mas demore a chegar / Eu te detesto e amo morte / Morte que talvez seja o segredo dessa vida”.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]