Logo

Elogio, sim. Cantada, não!

16.04.2015 - 20:12:29
WhatsAppFacebookLinkedInX

Sarah Mohn

Goiânia – Pouca coisa nessa vida é mais irritante do que receber cantadas na rua. “Vai, gostosa”, “boa tarde, deusa”, “essa é gatinha demais”, quando pegam leve conosco. Quando não, somos alvo de baixarias comumentemente verbalizadas em comparativos com suínos e equinos – potrancas, cachorronas e afins. E assim por diante, até o fim da linha, que fica bem próxima à audição daquele característico chiado de ar sendo sugado por entre os dentes e prensado pelo maxilar, numa versão piorada de assovio. Esse tira qualquer uma do sério.

Não há mulher que suporte andar por aí e perceber que seu corpo serve de alimento a esfomeados olhos alheios. Aliás, deve existir, mas não conheço ser humano do sexo feminino que goste de passar por isso. A meu ver, esse tipo de atitude é muito mais desconcertante do que propositiva. Provoca muito mais repulsa do que atração. Então, por que é que boa parte dos homens insiste em se comportar como animal irracional no cio diante de uma mulher visualmente interessante?

Tenho duas suposições. A primeira explicaria o famoso “vai que cola?”. O cara que é capaz de proferir cantadas indiscriminadamente é adepto da teoria de que o "não" ele já tem. Se conseguir o "sim", será lucro. Duvido muito que essa espécie humana já tenha obtido sucesso utilizando-se dessa bela estratégia de autoengano.

Minha segunda sugestão remete a uma característica sociocultural. Questiono se homens afeitos a esse tipo de prática não se sentem vangloriados ao tentar rebaixar mulheres à categoria de objetivo sexual merecedor de maus dizeres. Agridem-nas publicamente sob falsos elogios, certos de que não serão retrucados e conquistarão deferência de outros machos. Necessidade de afirmação de sua masculinidade.

É ruim enfrentar essa realidade. Eu confesso que não sei como lidar com isso e, muitas vezes, me pego possessa de raiva, desejando que uma bomba repentina surja em cima do cidadão que me agride. Afora o pensamento vingativo, o máximo que consigo fazer é ignorar. Finjo não ver e ouvir, porque tenho medo desse tipo de homem. Penso que quem é capaz de atacar verbalmente não mede esforços para partir às vias de fato, caso assim deseje. Por isso, fico na minha. Engolindo meu ódio, não enfrento.

Mas admiro mulheres corajosas, como a estudante mineira Débora Adorno, de 22 anos, que genialmente traçou uma estratégia para se livrar das investidas masculinas. “Estava perto da rodoviária (em Belo Horizonte), e quem conhece a região sabe que lá os passeios e ruas ficam lotados de vendedores ambulantes. Uma das ruas estava bem cheia e fui obrigada a andar mais devagar. As cantadas começaram de forma agressiva e eu me senti presa, impotente e quase sufocada mesmo. Um cara veio na minha direção me encarando. Antes de ele falar alguma coisa eu soltei logo a careta do dentinho. Ele achou tão estranho que passou reto”, explicou Débora em entrevista ao portal G1.

A técnica consiste em encolher o lábio superior e deixar dentes e gengivas à mostra. Aqui em Goiás, já vi essa expressão física ser chamada de “sorriso de cavalo”. Não importa o nome. O interessante é constatar que o negócio deu certo. De acordo com a estudante, diante da careta, os homens ficam sem reação e não proferem palavras desrespeitosas. “Depois disso, choveu um arco-íris dentro de mim, porque de uma hora pra outra não era mais eu quem estava desconfortável. De uma hora pra outra não era mais eu quem estava desviando o olhar, não era mais eu quem estava apertando o passo”, disse à reportagem do G1.

Sensacional. O desconforto ocupou seu devido lugar: na mente de quem o provocou. Débora merece ser parabenizada pela audácia e pela sacada e nós devemos seguir o exemplo de coragem. Acho que a solução é criatividade para lidar com esse tipo de situação. Se reagirmos com bom humor, ou sarcasmo, que seja, mas sem responder na mesma moeda da violência verbal, quem sabe um dia poderemos alterar o comportamento masculino e fazer os homens entenderem que a melhor cantada que podem nos oferecer é o respeito? Não custa tentar. E a perspicácia pode nos abastecer com boas risadas.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Sarah Mohn

*

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]