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Que sentimento é esse que se prende com cadeado?

16.07.2015 - 11:43:06
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(Foto: Mairie de Paris/Sophie Robichon)

 
Sarah Mohn
 
Goiânia – No início do mês de junho deste ano, a prefeitura de Paris retirou 45 toneladas dos famosos “cadeados do amor” da Pont des Arts (ou Passarelle des Arts) e substituiu o entulho por exposição temporária de arte de rua. A decisão corajosa do ex-prefeito Bertrand Delanoë, mantida pela atual prefeita, Anne Hidalgo, gerou polêmica no mundo inteiro e foi motivada após o desabamento, em 2014, de parte do gradeado da passarela por causa do peso do metal.
 
Centenas de moradores e turistas, que provavelmente tinham cadeadinhos presos na ponte, criticaram a “frieza” e até mesmo “o fim do romantismo” em Paris. Juro que desde o ano passado venho lendo artigos e comentários nas redes sociais que não se abstêm de poupar eufemismos. Mas, ainda bem, o bom senso prevaleceu e de nada adiantou a chiadeira. As autoridades temiam que o peso dos cadeados colocasse em risco a estrutura do século 19 e mandou o problema para o lixo, literalmente.
 
Por enquanto, os artistas plásticos Jace, El Seed, Brusk e Pantonio estão com telas expostas no local, numa ação acertada promovida pelo próprio executivo municipal. A informação oficial é que, a partir do outono lá, e a chegada daquele frio maravilhoso, a exposição vai dar lugar a painéis de vidro. Fin de l'histoire.
 
Ou peut-être pás. Os cadeados saem, mas o ser humano fica. A ação da prefeitura serviu para preservar o patrimônio histórico, mas também para nos obrigar a refletir sobre falta de limite. O que mais me intrigou nesse assunto foi observar até que ponto é capaz de chegar o indivíduo, das mais distintas nacionalidades e culturas, em prol do que chamam de “amor”.
 
(Foto: Mairie de Paris/Sophie Robichon)

À primeira vista pode parecer romântico e fofo. Mas se analisarmos a simbologia da junção cadeado + sentimento + relacionamento, talvez percebamos um certo descompasso aí no meio. 
 
É incoerente pensar no amor simbolizado por cadeado. Esse sentimento, que deveria preconizar leveza e liberdade, não tem sentido se for representado pelo objeto característico de cadeias e presídios. Nomes de casais escritos no metal e presos numa grade em qualquer lugar que seja, mesmo na capital mais romântica do mundo, diz muito mais sobre desespero e insegurança do que sobre felicidade e paixão.
 
Muita gente deve ter entrado na onda dos cadeados sem pensar sobre o que estava fazendo. E confesso que eu fui uma dessas pessoas. Em 2011, eu e um ex-namorado compramos um cadeado em qualquer uma daquelas infinitas lojinhas de souvenir próximas à Pont des Arts e à Catedral de Notre-Dame e prendemos o objeto lá. Cumprindo o ritual, jogamos a chave no Rio Sena. Que vergonha. Não me orgulho nem de uma coisa nem de outra, muito menos de poluir o meio ambiente.
 
Ao menos naquela época ainda havia muito espaço nas grades (foto abaixo) e não precisamos enganchá-lo em outro cadeado, como já estava acontecendo por superlotação de trincos nos últimos anos. Um verdadeiro absurdo, se pensarmos. Prender um relacionamento a outro relacionamento, um casal a outro casal… E por aí vai. Sem noção.
 
(Foto: Sarah Mohn/Arquivo de 2011)
 
Fiquei satisfeita pela limpeza que Paris promoveu na passarela e pela decisão criativa de ocupar, ao menos temporariamente, o local com arte. Fico feliz também por hoje ter a maturidade, que não tinha na época de afixar o cadeadinho, que me distancia da voz coletiva que criticou as autoridades francesas em nome de algo que é qualquer coisa, talvez possessão, menos amor.
 
O sentimento da “dor que desatina sem doer” e do “cuidar que se ganha em se perder” merece tratamento menos frívolo. Para continuar existindo, amor precisa ser sustentado por todos aqueles itens que não são palpáveis e não vêm em combo com chave. Necessita do alimento diário da cumplicidade, do carinho, da dedicação, do respeito, da confiança, da admiração, da afinidade e, sobretudo, da compreensão de que se trata de um sentimento de risco.
 
Talvez seja mesmo a condição de incerteza o ingrediente fundamental para que o casal se dedique a mantê-lo ou se acomode e o deixe naufragar. Como acertadamente disse Vinícius de Moraes, é imprescindível “que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. Enquanto dure.
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por Sarah Mohn

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