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Olhai os lírios do campo

19.12.2011 - 11:34:38
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Respeito muito os ateus e os agnósticos. Jamais seria capaz de criticar quem não acredita em Deus ou tem sérias dúvidas sobre sua existência, pois acho que a liberdade das crenças individuais não deve ser mero discurso, mas prática constante. Entretanto, minha história me fez diferente. 
 
Por uma série de razões que não caberiam nesse espaço, Deus se fez muito presente na minha vida. Uma presença forte, de alento e indubitável força. Há 13 anos, essa crença foi reforçada por um livro. “Olhai os lírios do campo”, de Erico Verissimo, foi uma obra definitiva na minha trajetória.
 
O livro retrata a história do jovem médico Eugênio. Vindo de uma família extremamente pobre, ele sentia-se inferiorizado em relação aos colegas ricos e nutria grande ambição de subir na vida. Casou-se com a milionária Eunice, mas era apaixonado por Olívia, médica humanista e de valores diferentes dos dele.
 
Eugênio era cético, enquanto Olívia tinha uma crença inabalável em Deus. Ele sonhava com bens materiais e ela com um mundo mais justo e solidário. Tantas diferenças não impediram que o amor entre os dois florescesse. Um dos momentos mais bonitos do livro é quando Olívia escreve uma carta a Eugênio. 
 
Na carta, ela pede que o médico leia o Sermão da Montanha, na Bíblia, e reflita sobre o ponto em que Jesus fala dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam, mas nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles.
 
“Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu”, ensinava Olívia.
 
Talvez o livro tenha me tocado tanto por seu eu, assim como Eugênio, uma jovem que também se sentia inferiorizada. Alguém que tinha a ilusão de que com roupas, carro e casa caros conseguiria preencher o grande vazio no coração e a sensação de estar sempre um degrau abaixo do mundo.
 
Até que conheci pessoas que me aceitavam como eu era. Gente que valorizava apenas a minha essência e para quem todo o resto era absolutamente dispensável. Em cada uma dessas pessoas fui enxergando a face de Deus. Um ser generoso, que sabe que o que enobrece um homem não é ausência de erros, mas a vontade de acertar e viver.
 
Essas pessoas entraram no meu caminho em momentos distintos, mas com uma frequência curiosa. E, a cada vez que uma delas aparecia, eu me lembrava da carta de Olívia e percebia que o segredo para ter paz de espírito e enxergar o essencial da vida era ser simples. De alma e coração.
 
Vi que, ao fechar os olhos e pensar nos momentos mais felizes de nossas vidas, o que nos vem à mente não é a compra de uma roupa de grife, de um carro equipado ou de uma bolsa importada, mas o dia em que ouvimos “eu te amo” de quem somos apaixonados, em que escutamos o riso de um filho pela primeira vez ou que fomos abraçados com intenso calor e afeto. 
 
Você deve estar se perguntando por que estou falando desse assunto aqui. Afinal, o que essa coluna tem a ver com Deus? Tudo. Quando me formei em Jornalismo, achava que para ser reconhecida precisava usar apenas o cérebro e fazer análises politicas, econômicas e sociais complicadíssimas, cheias de raciocínios lógicos.
 
Um dia, tanta complexidade racional não bastou e decidi deixar a simplicidade do meu coração falar mais alto. Foi assim que esta coluna surgiu. Nela, esse coração, às vezes alegre, engraçado, às vezes triste, se reflete puro, sem rodeios. E, por meio dela, venho experimentando uma realização pessoal inimaginável e vivenciando situações muito especiais. 
 
Como o evento em que fui recentemente e uma senhora, ao ser apresentada a mim, pediu para me dar um abraço apertado. Emocionada, me contou que a filha (com câncer no seio) andava muito desanimada, mas que depois de ler o texto “Sobre dramas e tempestades” recuperou o entusiasmo e a vontade de lutar.
 
Ou como a mensagem privada que um jovem me enviou pelo Facebook, dizendo que depois de ler o texto “Quanto pior, melhor” desistiu de terminar o noivado, pois percebeu que estava sabotando um relacionamento maravilhoso. Pela simplicidade do meu coração consegui me conectar com pessoas que nunca vi e levar a elas um pouco de paz e reflexão. E enxergar nesses leitores a face de Deus.
 
A você, que assim como eu acredita num ser maior que nos protege e acolhe, desejo que nesse Natal ele lhe dê coragem para ouvir seu coração e realizar seus sonhos. Que Jesus possa lhe mostrar que quando não desistimos da vida, ele também não desiste de nós e acende em nossa alma uma centelha de força e entusiasmo.
 
A você que não crê em Deus ou duvida da existência dele, permita-me sugerir que observe os lírios do campo e as aves do céu e faça uma analogia. Assim como as flores brotam nos locais mais inóspitos e áridos, a alegria também pode ser descoberta nas curvas dos caminhos tortuosos que muitas vezes a vida nos impõe.
 
Assim como os pássaros — seres tão simples e irracionais — conseguem alçar voos altos e promover belos espetáculos colorindo o céu, você, indivíduo dotado de inteligência e determinação, também pode conseguir ver além do horizonte e subir tão alto quanto queira. Basta acreditar e agir. 
Que nesse Natal possamos todos, como disse Erico Verissimo, “segurar a vida pelos ombros e estreitá-la contra o peito, beijá-la na face”. Porque ela sempre vale a pena. 
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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