Raisa Ramos
“Plantei uma flor no coração delaaaaaaaa…” Era a música que tocava no pub preferido de Amy Winehouse, naquele fim de tarde da segundona (2/1). A faixa do grupo de reggae brasileiro Natiruts ecoava pelos quatro cantos do The Hawley Arms, estabelecimento pequenino, localizado bem no centro de Camden Town. Pelo salão coberto de madeira, só se via mesas cheias, sofás ocupados em frente à lareira, pessoas bebendo em pé por não haver lugar para sentar, fotos e mais fotos de famosos autografadas – inclusive, claro, de Amy, em que, além do autógrafo, havia também um balãozinho de HQ saindo da cabeça da cantora, com a legenda “I love Blake”, desenhado pela própria artista – e vários brasileiros.
O segundo andar do local é reservado para clientes VIP, celebridades, para que elas não sejam importunadas pelo restante da clientela. No caso de Amy Winehouse, contudo, a cantora não gostava de ficar isolada dos demais. Segundo o que foi apurado – e o que mostram fotos antigas publicadas em tabloides ingleses – a falecida gostava mesmo era de ficar no saguão principal, junto com o “povão” mesmo. Na tentativa de tirar algumas fotos do balcão de cervejas, o garcom briga: “ No more pictures around the bar!” [Chega de fotos perto do bar!]. Talvez, após a morte da britânica, esse hábito de visitar o pub e registrar a experiência tenha se tornado tão comum que já irrita os atendentes do local. O engraçado é tentar imaginar Amy circulando pelo pub, com seu coque gigante de cabelo e sua maquiagem característica. Ao pensar que ela nunca mais entrará pela porta do pub, bate uma saudade estranha.
Lar doce lar
Camden Town, região no norte de Londres onde a artista morava, é conhecida pelos mercados ecléticos, pelos pubs badalados e pelas pessoas “estranhas” que circulam pelas ruas. A maior parte do bairro, contudo, é constituída pela vizinhança calma e tranquila, cheia de casas bonitas, familiares e parquinhos infantis. E era nessa situação que Amy vivia, longe da farra, em frente a uma praça para recreação de cachorros e crianças, onde idosos sentam para ler jornal e comer uma maçã. A casa de numero 30, localizada em Camden Square, é grande e linda. Com pintura que parece ter sido feita ontem, a fachada é limpa, branquinha, destacando o portão preto sem nenhum arranhão ou amassado, o único a ter um sistema com pedido de senha na entrada.
Flores, garrafas de vodca, maços de cigarro e mensagens saudosas do fãs ainda decoram tristemente o local onde a cantora foi encontrada morta por coma alcoólico. Nas árvores em frente a casa, nao há mais espaco para escrever recados de “descanse em paz” para a artista que faleceu precocemente aos 27 anos, em julho do ano passado. Um jardinzinho bem cuidado ocupa o espaço entre o portão e a porta de entrada da casa de quatro andares. Será que Amy sentava ali para fumar seu cigarro? Será que ela que cuidava das plantas? São perguntas que, querendo ou não, saltam à cabeca mesmo de quem nao é fã. Se ela cuidava ou não, de qualquer jeito, o que sobrou no local sao as plantas bem podadas, as oferendas dos fãs e o clima triste e sombrio que paira sobre a praça alegre de Camden Town. Rest in peace, Amy Winehouse.