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Você não vale nada, mas eu gosto de você

16.01.2012 - 12:10:23
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Aceitar as pessoas como elas são é uma arte. Esperar delas somente o que elas podem dar, sem criar falsas expectativas nem fazer cobranças constantes, é sabedoria para poucos. Na maioria das vezes, queremos que o outro se torne o ideal do que gostaríamos que ele fosse e nos frustramos por causa dessa teimosia.
 
Quer um exemplo? Quando um homem declaradamente galinha cruza o caminho de uma mulher, geralmente ela age de duas formas: ou aporrinha o sujeito durante todo o relacionamento para que ele mude, na ilusão de que sua aporrinhação o tornará fiel, ou finge aceitá-lo como é para tentar manipulá-lo no futuro. 
 
Minha amiga não fez nem uma coisa nem outra. Aos 45 anos de idade, percebeu que as pessoas são como são e nada nem ninguém muda isso. Entendeu que as pessoas só mudam quando elas mesmas decidem fazer isso e que a única coisa que podemos realmente manipular são as nossas atitudes, face ao outro e ao que ele oferece.
 
Bonita, sarada e independente, ela foi casada por quase 20 anos e comeu o pão que o diabo amassou com o lado da manteiga para baixo com o ex-marido. Cansada de sofrer, pediu o divórcio e, com os filhos crescidos, resolveu curtir a vida. Passou a ter como meta viajar, passear e conhecer gente interessante.
 
Certa vez, foi a uma boate e começou a ser paquerada por um deus grego. Lindo, personal trainer e mais novo que ela (27 anos). Sem conseguir resistir ao charme do moço, ficou com ele e foi ao céu. Mas voltou rapidinho à Terra quando ele disse que, apesar de ter gostado dela, não queria saber de compromisso com ninguém.
 
O gato pegou o telefone da minha amiga, mas só ligou 15 dias depois. No carro, lascou o hit do Calcinha Preta “Você não vale nada, mas eu gosto de você”, e disse que esse era o tema musical dele. Segundo o rapaz, mesmo sabendo que ele era um garanhão de primeira, as mulheres o amavam loucamente.
 
Minha amiga riu da pretensão do sujeito e resolveu que não iria se estressar nem tentar mudá-lo. E como o negócio era curtir o momento, mandou as expectativas para o espaço e decidiu fazer tudo o que tivesse vontade. Falava o que dava na telha, não fazia nada na cama que não estivesse a fim e não perguntava nada da vida dele.
 
A cada vez que o cidadão enfatizava que não queria namorar de jeito nenhum, ela também dizia que não tinha a menor vontade de ter um compromisso sério. Quanto mais ele fazia questão de deixar claro que aquilo era apenas um rolo, mais ela mostrava que tinha entendido o recado.
 
Mas um outro homem que paquerava minha amiga há tempos queria compromisso e ela começou a namorar com ele. Ao saber disso, o rolo ligou para tirar satisfação. “Você não disse que não queria namorar?”, perguntou. “Com você eu realmente não queria de jeito nenhum”, respondeu ela.
 
“Como assim, comigo não?”, questionou o rapaz irado. “Vocês homens não vivem dizendo que tem mulher para namorar e mulher para ficar? Pois então! Você não é homem para compromisso, é homem para farra. E foi você mesmo quem me disse isso”, argumentou ela. O moço engoliu a resposta a seco e sumiu.
 
O namoro não foi para frente e logo minha amiga ficou solteira de novo. Rapidinho o ex-rolo reapareceu e eles começaram a ficar outra vez. Como minha amiga não se anulava por causa do moço e continuava saindo, passeando e conhecendo gente, não tinha crises de carência e estava sempre alegre e animada.
 
Estranhamente, o rolo começou a ligar quase todos os dias. De um jeito discreto, tentava especular sobre a vida dela e saber se ela tinha ficado com outro homem. Ela cortava, dizendo que não era vidente. “Não falo de passado nem de futuro. Falo só do presente. Quer saber de passado e futuro, vá a uma cartomante”, respondia.
 
Uma noite ele tomou todas e ligou para ela. Disse que estava com saudade, mas que sabia que ela não ia querer encontrá-lo, porque ele estava num bar copo sujo com os amigos. Ela não apenas foi, como se divertiu horrores, jogando sinuca com a turma dele e falando potoca a noite toda.
 
O resultado era que toda vez que ele ia sair, os amigos pediam para ele chamar a amiga super legal. Encontra daqui, fica dali, um dia o moço não resistiu e se declarou. Disse que estava apaixonado e não queria apenas um rolo com ela, queria namorar de verdade. Disse que pensava até em casar.
 
Surpresa com a declaração, minha amiga não acreditou de cara. “É que você nunca tentou me manipular nem me mudar. Me aceitou como eu era, mas também não se modificou por minha causa. Foi autêntica e deixou rolar para ver no que dava. Isso é raro. Fiquei encantado com tanta espontaneidade e autoestima”, disse ele.
 
O golpe mortal veio quando o moço alegou que ela não corria o risco de se decepcionar, pois já conhecia seus defeitos de cor e sabia como se defender da galinhagem dele. “O pior você já viu. Agora é hora de me dar uma chance de mostrar  meu melhor lado”, disse. Ela pagou para ver e não se arrependeu.
Os dois estão procurando uma casa para comprar num condomínio fechado. Vão juntar as escovas de dente em maio. Mas o tema musical continua sendo do Calcinha Preta. Agora ela canta o refrão de “Não gruda, não cola” para ele: “Não, não, não quero acreditar/ Você era pegador e agora quer casar…”
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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