
O mercado tradicional dá mostras de que ainda não aprendeu a lidar com as mídias contemporâneas. Agora mesmo, os parlamentares dos Estados Unidos, movidos pelo lobby da indústria de entretenimento, correm para aprovar leis que tentam dificultar o compartilhamento de arquivos via rede mundial de computadores – o que eles chamam, sem eufemismos, de pirataria. Dois projetos estão prontos na Câmara dos Representantes (equivalente à nossa Câmara dos Deputados) e no Senado do Tio Sam: o Stop On-Line Piracy Act e a Protect IP Act. Dois textos que originaram duas siglas ironicamente engraçadas: Sopa e Pipa.
Por trás das iniciativas, há uma tese defensável: a de proteger os direitos autorais e intelectuais de autores de obras de arte ou quaisquer outros produtos da indústria cultural. Tudo leva a crer, porém, que ambas serão inócuas. O exemplo Napster não nos deixa iludir. O fechamento do site, pioneiro na troca de arquivos MP3, não impediu que o download gratuito de músicas se expandisse e, se a indústria não morreu de vez, muito se deve a um brinquedinho lançado há uma década e que permitia carregar mil músicas no bolso: o iPod.
O Sopa e o Pipa representam uma tentativa desesperada de sobrevivência de um modelo de criação, compra e venda que, a cada dia, ganha contornos de capítulos de livros de história. E soam contraditórios por brotarem em um país que se orgulha da sua Primeira Emenda Constitucional, que, entre outros pilares, inclui como direito imutável a livre expressão ou, ampliando-se o conceito, de livre circulação de ideias.
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Liberdade de expressão e pirataria, obviamente, são coisas totalmente diferentes. Mas não deixa de ser curioso um país que consagrou a primeira lançar mão do cerceamento da liberdade para evitar a segunda. Esse mesmo país, inclusive, criou ferramentas que facilitam, enormemente, o compartilhamento de produtos culturais no formato digital.
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A internet representa para o século 21 o que o movimento hippie significou para os anos 60. A aparente anarquia se traduz em um ambiente farto para a criatividade. Assim como, há 50 anos, bandas de rock surgiam aos montes nas garagens para mudar o comportamento de gerações, hoje as revoluções podem começar no quarto de casa ou nos laboratórios das universidades – o Facebook está aí como maior exemplo.
O que assistimos hoje representa uma intensidade extrema do fenômeno notado por Walter Benjamin ainda na década de 1930, em pleno florescimento do cinema. No ensaio “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, o filósofo e sociólogo alemão observou a diluição da “aura” da obra artística por causa de sua reprodução em massa. Na era do compartilhamento, tudo circula em uma velocidade astronômica, torna-se de domínio público em fração de segundos, para depois cair no esquecimento frente a outra novidade que prenda a atenção do grande público.
Ao mesmo tempo em que a indústria de entretenimento pressiona pela vigilância e punição, gigantes da internet, como Google, Twitter, Facebook, Wikipedia e Fundação Mozzila, repudiam o que vislumbram como porta aberta para a censura. Ao mesmo tempo, o grupo Anonymous iniciou mais uma série de ataques a sites de órgãos governamentais e empresas norte-americanas. O que se prova que, até agora, o Sopa e o Pipa só conseguiram colocar do mesmo lado o atual mainstream, representado pelas megacorporações digitais, e o underground, liderados pelos hackers.