Se for para ouvir música, eu sempre coloco um disco para tocar. Independente do formato, em MP3, cassete, CD ou vinil. Se é para ouvir, vou da primeira à última faixa. É claro que nem sempre dá para escutar tudo, pois aparecem os compromissos da vida e o tempo está cada vez mais escasso. Assim, as faixas que encerram o álbum acabam sendo menos ouvidas, talvez até negligenciadas. Mas não abdico da possibilidade de ouvir o disco inteiro.
Estou falando disso pois percebo que cada vez menos gente tem interesse em ouvir discos inteiros. Mesmo gente que ama música, discute, pesquisa, conhece e tudo mais. As playlists temáticas ganham espaço em detrimento dos discos. Voltamos à lógica do single, da música avulsa se sobrepondo ao conceito fechado de um álbum. Só para variar, me sinto completamente anacrônico nesse mundo novo.
Eu ainda acredito em artistas que pensam o disco fechado, como uma obra inteira. Então, só tem sentido se ouvirmos o álbum completo e as faixas naquela ordem. Pois uma música está encadeada na outra até a última. Se o artista acertou a mão ou cometeu um equívoco, é outro debate. Depois de fazer a audição dessa forma é que você pode ter elementos para construir a crítica. Antes disso, é precipitação e uma análise que não se debruça sobre aquilo que de fato o artista pensou.
Essa geração shuffle não consegue imaginar a amarração de uma obra de arte e tem sua reflexão naturalmente fracionada. A dificuldade de ver o todo vem daí, dessa impossibilidade de observar que a obra completa tem um sentido único que só se materializa quando todas músicas são ouvidas naquela ordem específica. Quando escutadas de forma aleatória ou separadas, podem até se mostrar grandes canções, mas que não atingem aquele fim maior.
Por exemplo, Time do Pink Floyd é uma excelente música independente da forma como for ouvida. Contudo, ela só se realiza na plenitude quando escutada encadeada dentro do Dark Side of the Moon. A mesma coisa com With little help from my friends dos Beatles no Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Pinball Wizard do Who no Tommy. Outro disco que só faz sentido se ouvido inteiro é o Rust Never Sleeps do Neil Young. E digo mais: esse aí só se realiza quando você ouve o vinil. Trata-se de um álbum ao vivo, onde o lado A mostra a faceta acústica e contemplativa do bardo canadense, enquanto o lado B vem com a fúria das guitarras distorcidas como ele tão bem faz.
Então, se me chamar para ouvir um som, saiba que eu tenho critérios. Ou seja, sou bem chato. Venha com discos e não com listas, por favor!