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A mulher invisível

23.01.2012 - 12:00:20
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Semana passada um amigo que mora na Bélgica me ligou. Me dei conta que dez anos se passaram, desde a minha partida para aquele país para fazer meu mestrado em Relações Internacionais. Há uma década eu trocava o calor de Goiânia pelo frio gélido de Liège, uma cidade próxima à Bruxelas. Incentivada por um casal de amigos que já estava lá, fiz a seleção para o mestrado junto com outras duas amigas. Passamos e, em 2002, deixamos para trás família, namorados, amigos e empregos para ir em busca do sonho de viver na Europa por um tempo e estudar numa universidade de renome internacional.
 
Não me arrependo nenhum pouco. A Universidade de Liège me surpreendeu positivamente em tudo. Tive um time de professores dos sonhos, com conselheiros da União Europeia, consultores da ONU e ex-cônsules que haviam passado por vários países e conheciam a realidade política, econômica e mundial como ninguém. Com uma excelente infraestrutura, que incluía uma enorme biblioteca equipada com computadores, auditórios imensos e um hospital universitário que deixa no chinelo vários dos melhores hospitais privados de Goiânia, a Universidade de Liège se mostrou uma instituição de ensino superior de vanguarda e seriedade. 
 
Fora isso, ainda pude aprender a falar fluentemente uma língua que amo (o francês), me esbaldei com a melhor cerveja, a melhor batata frita e o melhor chocolate (sorry, suíços, mas os belgas são muito bons nisso) do mundo, fiz amigos incríveis e conheci vários países da Europa que sempre sonhei. Entretanto, acho que nenhuma dessas experiências me marcou tanto quanto aquela que diz respeito à forma que encontrei para ganhar a vida na Bélgica. Há dez anos, 1 euro valia quase 4 reais. Como eu não tinha bolsa de estudos, torrei tudo o que juntei no Brasil para bancar os primeiros meses de estudo.
 
Depois de pagar passagem, custos com visto, roupas de frio e os primeiros meses de aluguel e alimentação, vi meu dinheiro virar pó. A única solução era buscar um trabalho. Por ainda não falar francês fluentemente, o que me apareceu foram empregos como babá, cozinheira e faxineira. Fiz de tudo um pouco, mas acabei me tornando mesmo uma bela faxineira. É que esse é o tipo de emprego que nunca falta — porque ninguém abre mão de ter sua casa limpa e cheirosa toda semana –, o pagamento é feito em cash e o trabalho costuma levar cerca de três horas para ser executado. 
 
O começo foi barra, porque eu era (confesso sem vergonha) filinha da mamãe. Sempre tive roupa lavada e passada, comida pronta na mesa e casa arrumada quando chegava do trabalho. Nunca precisei lavar uma calcinha nem fritar um ovo. Tive de aprender o be-a-bá da faxina na marra, num “curso intensivo”.
 
Lembro como se fosse hoje a primeira faxina que fiz. Depois de deixar o apartamento do cliente um brinco, fui toda empolgada receber o dinheiro. Ele olhou para a porta da sala, ficou na ponta dos pés, passou o dedo no vão da parte de cima e disse: “Aqui está sujo”. Pois é, era preciso limpar tudo: até a porta. Mas também era preciso muito mais. A boa faxineira é aquela que não se faz perceber. Você precisa ser extremamente discreta, rápida e silenciosa. Quanto mais calada e concentrada, mais chances tem de deixar seu cliente feliz. Também precisa cuidar da sujeira sem deixar seus próprios rastros, pois a casa não é sua. 
 
Um trabalho bastante digno, sem dúvida, mas que foi uma pancada na minha vaidade. Sim, porque ninguém vai fazer faxina de salto, maquiagem, vestido, escova no cabelo e unha feita. Quando você descobre o poder da água sanitária, entende que seu uniforme será seu moletom mais detonado, um tênis velho e o cabelo sempre preso. Além disso, todo jornalista é metido a dar pitaco em tudo. Como as pessoas pensam que sabemos das novidades em tempo real, sempre querem nossa opinião e nos acham a última Coca-Cola do deserto, o que infla muito o nosso ego. Acontece que  quem te contrata para uma faxina não está nem aí para a sua opinião.
 
Seu cliente de faxina nunca perguntará o que você acha sobre a marca de desinfetante que ele comprou, ou sobre onde você acha que o porta-retrato fica melhor posicionado. Você não é paga para achar nem falar nada. Dane-se a sua opinião. Também foi uma pancada na minha resistência física. Uma faxina por dia era pouco para pagar minhas contas. Era preciso ao menos duas. Então, voilà a rotina: acordar de madrugada para estudar para as provas, passar a manhã assistindo aulas na universidade e fazer faxina das 13 às 19 horas (mesmo se o termômetro estiver marcando 10º C negativos).
 
Durante seis horas do meu dia, eu ficava invisível. Desarrumada, sem dar uma palavra e limpando com a rapidez de uma maratonista, virei “a moça da faxina”. Eu não era a jornalista goiana que trabalhava no maior jornal do Estado, paparicada e procurada. Muita gente mal sabia meu nome nem se lembrava do meu rosto.
 
Não passei um mês assim. Foram quase dois anos e meio de invisibilidade. Tempo suficiente para refletir sobre o efeito dessa condição na minha vida e reavaliar conceitos. Quando você muda de classe social e se despe da imagem de glamour que se esforçou para cultivar a vida toda, surge uma nova pessoa. Mas quem é ela?
 
Me tornei mais realista em relação aqueles que me cercam, porque passei a observar se quem convivia comigo gostava mesmo da minha essência, ou buscava só a conveniência do que eu representava socialmente. Também exercitei o desapego, porque me dei conta de que dinheiro, beleza e status passam como o vento.
 
Passei a prestar mais atenção nos “invisíveis” ao meu redor e procurar saber quem eram, como viviam, o que pensavam. E me surpreendi ao saber que, na maioria das vezes, eles tinham histórias de superação e lições de sabedoria que deixariam muitos gurus de autoajuda de queixo caído. 
 
É o caso dos meus dois melhores amigos na Bélgica, um congolês e uma romena. Ele foi preso e torturado durante dois anos pelos governantes do seu país, porque era filho de um político que se opunha ao regime. Foi libertado pela Anistia Internacional e ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Liège.  Meu amigo também se viu despido da posição social – o pai era rico e vivia com todo conforto no Congo – e se tornou apenas mais um imigrante num país europeu em busca de oportunidades. Passou a viver com pouco e a partilhar o que tinha com quem não possuía nada, ou quase nada.
 
Minha amiga é uma mulher linda, morena de olhos azuis, economista e extremamente inteligente. Como a situação econômica no Leste Europeu não andava lá essas coisas, também foi fazer mestrado na Bélgica e, parar se virar, trabalhava 8 horas por dia como garçonete em um grande buffet de Liège. 
 
Quando as pessoas dizem que sou “fina” por ter feito mestrado na Europa, me lembro de tudo isso e rio. Eu é que sei quanto chão e quantos banheiros tive de lavar para manter toda essa “finesse”. E o quanto precisei me tornar invisível para aprender a enxergar o que, de fato, importa. Porque às vezes é preciso sumir para aparecer melhor. 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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