Bragança, Portugal – Engraçado como há uns anos quando a gente ouvia alguém dizer “fulano vai estudar na Europa” ou “o tal vai passar férias na Europa” era o ó do borogodó. No mínimo tinha muita grana ou era um cabeção para conseguir bolsa e vir para cá. Parecia uma coisa tão distante, tão para pouquíssimos. Mas aí, se essa tal de globalização veio arrasando muita coisa por um lado, por outro é inegável como o mundo ficou pequeno e aumentaram as facilidades de estar ali, aqui e as oportunidades de não se limitar à sua região geográfica. Para colaborar com isso, nosso gigante não adormecido veio crescendo economicamente, a gente foi junto e o euro só caindo. Moral da história: viajar ou passar um tempo na Europa deixou de ser coisa de aristocracia.
Eu desafio alguém que não encontre, em um dia, pelo menos um brasileiro em qualquer das grandes cidades daqui. Estudantes então, nem se fala. Cada vez mais editais, mais convênios, mais bolsas e mais brasileiros por aqui. Vi uma matéria esses dias dizendo que a crise na Europa vai fazer com que aumente 31% de estudantes fazendo intercâmbio em 2012. De 215 mil esse número crescerá para 282 mil. Eurotrips também deixaram de ser coisa de gente que se planeja a vida inteira para isso ou que tem os bolsos cheios. Organizando-se bem, pode sair mais barato que três fins de ano na praia, por exemplo.
Mas o que acontece é que, ainda, existe aquele ranço aristocrático de significar glamour viajar ou morar na Europa. Ai, como é chique! Arrotar quantos países conheceu, que entrou na Louis Vuitton da Champs Elysées (só para olhar, claro), comprou muita roupa (tudo em liquidação na H&M). Não que não seja legítimo fazer isso, mas não, não tem glamour nenhum. É quase anacrônico, atualmente, falar das experiências na Europa com ar de fineza.
Por trás das lindas fotos no Facebook e de todas as histórias contadas por aí, são dores nas costas de carregar mochilão para cá e para lá, os estômagos enjoados de comer fast food, noites viradas em aeroportos de chão gelado e alguns constrangimentos nos quartos de albergue em que dormem dez pessoas. Mas, definitivamente, a morte do glamour ao viajar pela Europa, para mim, se concretiza nos voos baratos. Santa Ryan Air, agradeço os voos a 20, 15, 9 euros que comprei por aqui. É ela que proporciona a nós, estudantes e/ou pessoas não abastadas, conhecer a Europa.
Só que isso não é caridade. E, contraditoriamente, paga-se um preço por viajar barato. Tudo começa ao arrumar a mala. Muito mal acostumados no Brasil em carregar 22 quilos para onde quisermos (isso se for de avião, carro e ônibus então, nem precisa encucar com peso), nunca foi preocupação fazer mala pequena. Muito menos levar um vinho, por exemplo, de presente para o seu anfitrião. E aí entram as regras das empresas de voo barato: apenas uma mala por viajante pesando, no máximo, 10 kg. Isto é, nada de uma bolsinha e uma mala. Ou bolsinha da câmera e mochila. É só uma mesmo! E como é mala de mão, líquidos somente em embalagens de 100 ml. Aquele vinho? Manda por correio. A não ser que você queira despachar e pagar 15 euros por cada trecho. Ou seja, 30 euros para ir e voltar. Putz, 30 euros são três paellas com entrada, vinho e sobremesa em Madri! Ou duas baladas em Roma, ou três, que conheci em Berlim. Ou quase três noites no albergue em que fiquei em Roma.
Significa: se virar para fazer mala de 10 kg, com as dimensões de 55cm x 40 cm x 20cm.
Na verdade, quase nunca pesam sua mala. O importante mesmo é que ela caiba na constrangedora caixinha da Ryan Air. Se não couber, vá para o lado pagar a deliciosa taxa de 40 euros. Atire a primeira pedra quem já viajou de Ryan Air e nunca gelou quando estava chegando sua vez de enfiar a mala ali.
Como é inverno e os casacos ocupam espaço de roupas para uma semana no verão, a primeira dica é: vestir todos os casacos para conseguir embarcar sem pagar 40 euros. Quem vacila em fazer mala pequena ainda tem de vestir três calças, quatro cachecóis, três blusas de manga comprida, além dos dois casacos. Seria confortável, se não tivesse aquecedor no aeroporto e acabasse sentindo calor. E se não tivesse de tirar quase tudo isso para passar pelo raio-x. Se você vir na fila alguém todo empacotado, pode saber, a mala está grande e está usando a velha manha de passar calor para não passar apertado.
Primeiramente, os aeroportos dessas empresas são sempre bem distantes, localizados nas cidades próximas das grandes. Por exemplo, Beuvais-Paris, Bergamo-Milão e por aí vai. Isso significa que você tem sempre de deixar a cidade cedo para chegar em tempo ao aeroporto. Segundo ponto, nesses voos os assentos não são marcados. Então conforme as pessoas vão chegando ao portão de embarque, vão fazendo fila, para ter o melhor lugar. Seria ok, se isso não demorasse mais que uma hora. Isso, uma a duas horas em pé, na fila, para ter um lugar razoável no avião. Crianças, idosos, família, todo mundo na onda da fila. O voo sai, por exemplo, às 19h. Lá pelas 18h45 é que aparecem dois funcionários: um para receber bilhete e o outro para ser o mauzão: checar as dimensões da mala.
É o momento mais tenso de toda a viagem: enfiar a mala ali para ver se segue para o avião ou se paga 40 euros. Empurra daqui, empurra dali e pronto: entrou. A funcionária ou funcionária dá o ok, pode seguir para o avião. Aí puxa, puxa, alguém ajuda a segurar a caixinha e aí sim, a mochila sai dali. Às vezes demora a entrar, aí você tem de convencer a funcionária que vai caber. Tira uma outra coisa, veste mais um casaco e passa. Aí você fica lembrando que aqueles 15 euros pela passagem têm o constrangimento como taxa.
As três cenas mais constrangedoras eu vi no aeroporto de Bergamo. A primeira, mais leve, foi com um jovem atrás de mim. Ele carregava uma bolsa, pequena, e uma pasta com notebook. No meu mochilão cabiam umas três dessas bolsas e umas quatro dessas pastas, juntos. Mas acontece que ele carregava duas bagagens e não uma, como permitido. A funcionária disse que ele teria que pagar a taxa. Ele disse ok e pronto. Pagou e resolveu o problema. O que não aconteceu com uma mãe e um filho a minha frente.
Ela tinha uma bolsa (grande) além de sua mala (que também estava grande). O filho, só uma mala, que entrou na caixinha. Na fila, de longe eu vi a mala dela e já sabia que não ia entrar. Também fiquei pensando o que ela ia fazer com a bolsa. (É, tenho desenvolvido esse hobby durante o longo tempo na fila: adivinhar que mala entra e a que não entra). Claro, foi barrada. Aí abriu a mala e começou a vestir um casaco atrás do outro, enrolar cachecol no filho, deixar água e bolacha por ali. Colocou a bolsa dentro da mala e sentava em cima para ficar mais compacta, empurrava uma coisa aqui, outra ali até dar as dimensões. Enfiou um saco com livros por baixo do casaco do filho e ele passou, nitidamente com uma barriga gigantesca quadrada que não pertencia a ele. Eu e todo mundo vendo isso. Constrangedor, não?
Mas acontece que de constrangedor para triste é um pulo. E foi o que senti na mesma fila com o que aconteceu com uma mulher muçulmana. Ela estava com dois filhos bem pequenos: uns dois e quatro anos, no máximo. O filhinho e filhinha já tinham uma mochilinha nas costas. Ela, uma bolsa. Além de três malas. Dessas, só uma tinha as dimensões apropriadas. Ela era a primeira da fila. Enquanto todas as outras pessoas iam embarcando, ela tentava dar um jeito nas malas. Sacolas e mais sacolas de comida e de não sei mais o quê foram ficando para trás. Quando vi, os menininhos nem se mexiam de tão duros de casacos, cachecóis e gorros que ela colocou neles. Mas não ia dar, estava na cara. Ela ligava para alguém, se desesperava, gritava com os funcionários da Ryan Air. Ela não tinha o dinheiro e conseguiu encaixar só uma mala. Não embarcou.
Entrando no avião, a briga por fazer você gastar mais do que os poucos euros da passagem continua. É claro que qualquer comida e bebida são pagas. Além de oferecerem revistas, perfumes, cosméticos, umas espécies de rifas e até ticket para London Eye. E, se você estiver dormindo, vão te acordar para tentar a venda. Ser aeromoça na Ryan Air exige muito talento com o comércio. E, por fim, definitivamente, a parte boa é quando se chega. O sentimento de curiosidade e êxtase que nos acompanha ao descer na cidade famosa ainda desconhecida ou o sentimento de cansaço e alegria porque está chegando em casa. Com alguns constrangimentos, sem nenhum glamour, o mundo fica pequeno e a Europa mais próxima.