Quando pré-adolescente, me recordo da primeira vez que ouvi a frase “é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez”. Foi na música Decadence avec élegance, de composição do Lobão. Na verdade, eu até já devia ter ouvido esse som antes, mas nunca havia parado para pensar no que queria dizer aquela sentença. Quando refleti, fiquei ressabiado. Não via muito sentido naquilo de viver só dez anos, afinal, eu tinha pouco mais que isso de idade e sabia que ainda havia muita estrada interessante a percorrer. Olhando do outro lado, também achei que viver demais de forma modorrenta deveria ser muito sacal para uma vida toda. É claro que fiz uma interpretação literal, sem pensar nas conotações mais subjetivas. E, naquele momento, surgiu na minha cabeça uma máxima que até hoje persigo: “o lance é viver cem anos a cem”.
Quando comecei a ler os gregos na adolescência, graças à rica biblioteca da antiga Escola Técnica Federal de Goiás, saquei que aquilo que eu ambicionava se chamava temperança. Uma atitude mais comedida entre os extremos, buscando sempre o caminho que tente equalizar todas necessidades. Ou seja, não precisamos viver loucamente como se o mundo fosse acabar amanhã e também não é necessário andar sempre com os dois pés no freio. Um pouco de loucura é bom, mas loucura o tempo todo cansa. Acho que assim dá para aproveitar de tudo um pouco, sem passar vontade e sem cair no hedonismo extremo.
Por exemplo, vejo pessoas com completa repulsa do mundo virtual. O máximo de contato que se permitem é responder e-mails de trabalho e dar uma olhada nas notícias. E só. Não fazem ideia do que são as redes sociais, não sabem baixar nada da internet e não têm o menor interesse quando o assunto é o fechamento do Megaupload. Entendo esse comportamento como anacrônico e limitante. Pois todo esse mundo novo da internet acaba sendo perdido e a perspectiva de vida pessoa fica restrita como era há duas décadas.
Por outro lado, observo pessoas que não conseguem se desconectar nunca. Ficam o tempo todo pensando no próximo tuíte que vai ter um monte de RTs, o vídeo legal para colocar no Facebook, a foto bacana do Instagram e estão ativas em um bilhão de redes sociais. Todos nós temos só 24 horas por dia e a vida está acontecendo lá fora enquanto esses ficam com a cara na tela. As pessoas não ouvem mais um disco com atenção, não assistem um filme sem dar uma olhada na internet pelo celular, não sentam em uma mesa de bar sem ter algo para colocar no mundo virtual. E se transformam em zumbis no mundo físico.
Como falei anteriormente, nem muito ao céu, nem muito ao inferno. O plano terrestre intermediário é o mais legal. Viver um pouco de tudo proporciona mais experiências no final. E, no frigir dos ovos, o que conta de verdade são as coisas que vivemos em universos distintos, sejam eles virtuais ou reais. Focar em só um dos dois é desperdiçar a imensidão de prazeres que existem do outro lado. E sempre prefiro o plural em comparação ao singular.