Em meio às iniciativas para restrição de liberdade que assombram a internet desde o início do ano (SOPA, PIPA, censura seletiva no Twitter), uma personagem emerge no noticiário da grande imprensa brasileira e joga um pouco de luz no obscurantismo dos que teimam em vigiar e punir: Yoani Sanchez. Filóloga, jornalista e blogueira de 36 anos de idade, Yoani consegue driblar um dos regimes mais cerceadores do livre circular de ideias e se conectar com o mundo via blog e, principalmente, via 140 caracteres.
A cubana é autora do blog Geração Y , escrito em vários idiomas, inclusive o português de Portugal. Ali, denuncia os excessos do regime castrista, publica vídeos e fotos de Cuba, principalmente da capital, Havana. Pelo trabalho, recebeu do El País, o principal jornal da Espanha, o prêmio Ortega Y Gasset de jornalismo. Tudo isso em um país onde o acesso à internet é extremamente complicado, feito em hotéis a preços altíssimos, ou lan houses, e sob monitoramento constante.
Não cabe aqui qualquer discussão ideológica, mas a liberdade de expressão não é, notoriamente, uma das virtudes da terra onde floresceram pérolas culturais como a música do Buena Vista Social Club ou a literatura de Pedro Juan Gutiérrez. Além disso, o internauta cubano convive com os efeitos do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que se reflete nos serviços de tecnologia.

Foto do perfil do Twitter de Yoane Sanchez
É no microblog que Yoani revela a força da comunicação digital. Apesar das limitações técnicas – ela publica mensagens via SMS -, a jornalista ultrapassou as fronteiras da ilha e, hoje, é uma celebridade do Twitter. Tem mais de 200 mil seguidores em vários países. Costuma escrever, freneticamente, sobre questões políticas e oscila entre mensagens otimistas e pessimistas sobre o futuro. “Nossos políticos são como elefantes em cristaleiras”, postou dia desses.
A jornalista cubana é um dos rostos uma realidade consolidada lá no início da Primavera Árabe, quando as vozes do Oriente clamando por liberdade foram ouvidas em todo o mundo. Seguir o seu perfil é um exercício particularmente estimulante quando se observa o ambiente em que vivemos neste exato momento. Nos Estados Unidos, berço da liberdade de expressão, o lobby da indústria de entretenimento fez prosperar iniciativas para sufocar este preceito (leia aqui meu texto sobre o Sopa e o Pipa). Felizmente, os dois projetos foram parar na gaveta, pelo menos por enquanto (leia aqui texto de Camila Lourenço).
Mas, ao mesmo tempo em que os defensores do atraso tiveram de recuar no parlamento norte-americano, o próprio Twitter criou uma ferramenta para bloquear conteúdos “ofensivos” de acordo com os conceitos de cada país – leia-se governos. É óbvio que a intenção é entrar em mercados como a China. Mas ajoelhar-se frente às exigências governamentais pode ser um tiro no pé dado pelo próprio microblog. Os filhos da cibercultura já deram inúmeras provas de que não aceitam regras que atendem apenas os interesses comerciais destes ou daquelas empresas. E não hesitarão em trocar qualquer ferramenta por outra que siga apenas um preceito: liberdade total.
Como diz um post de Yoani Sanchez do dia 24 de janeiro: “Um dia poderei tuitar de verdade e não às cegas como agora, responder vossas perguntas, participar de debates, conectar-se à internet”. É o que todos querem.