Bragança, Portugal – “Nadinha, você não sabe o que aconteceu”. Era a Adê do outro lado da linha numa terça-feira às 19h30. A mesma que, nesse texto, contei que sofreu xenofobia dentro de sala de aula no seu primeiro dia no IPB. Eu poderia imaginar mil coisas que poderia ter acontecido com ela, mas já sabia que era qualquer coisa relativa a preconceito. Dessa vez, a gente sentiu, era de fato mais grave, porque envolviam crianças. Um menino e uma menina, entre sete e dez anos, ouviram Adê e Amanda conversando em “brasileiro” andando na rua. O rapazinho começou a empurrar a Amanda e ela, sem entender, falou: “a gente não está brincando não. Está frio, vai para casa”.
O menininho deu o tom de que não era mesmo brincadeira. “Bate irmã, bate, é puta, é puta”. E as duas crianças começaram a agredir as duas brasileiras até elas chegarem em casa. Empurraram a porta, tentaram entrar. As meninas estavam pasmas. Como reagir com crianças? Bater de volta? Chamar a polícia? Tentar, pedagógica e tranquilamente, no meio da agressão, explicar que elas eram estudantes e não prostitutas?
Depois que Adê me contou o ocorrido e desliguei o telefone me vieram muitos sentimentos. O primeiro, raiva. Vontade de ir até os pais dessas crianças e dar uma bronca. Ninguém dessa idade pensa por si próprio. Há um discurso falso, preconceituoso, raivoso sendo produzido e ensinado. Depois pensei que tínhamos mesmo que ir à polícia, porque essas crianças poderiam “atacar” de novo e isso deveria estar registrado. Em seguida pensei que nossos reitores deveriam saber do que ocorre por aqui. Estudamos, damos nosso melhor, passamos por uma seleção para sair do nosso país e ser agredido?
Por fim, cheguei a uma conclusão: isso não é um problema pessoal. É social. Isso significa que não adianta bater boca na rua, responder com agressão, ir atrás dos pais, pedir à direção que puna os alunos do IPB que nos ofendem. E mais, contra nós, brasileiras, o preconceito é maior por conta do episódio que já contei aqui. Mas não se limita a nós, mas aos caboverdianos, turcos, espanhóis, poloneses e tantas outras nacionalidades que estão aqui. A origem disso tudo? O simples desconhecimento das culturas, das pessoas e do interesse em descobrir isso que está aqui.
Mas não pensei isso sozinha, não me indignei só. A gota d’água que despejou nossa indignação nos fez parar para pensar, refletir, discutir e agir.
Eu, meus amigos-irmãos brasileiros com quem convivo aqui e convidamos as outras nacionalidades. Turcos e caboverdianos foram quem mais aderiram à ideia. Pensamos que isso não é simplesmente normal. E que, por mais que nossa estadia aqui seja rápida, não podemos fechar os olhos para as piadinhas, as indiferenças chegando às agressões por simples intolerância às diferenças culturais. O nosso desejo é que os próximos intercambistas ou qualquer brasileiro que aqui venham encontrem uma Bragança tolerante e valorizadora da interação cultural.
Num prazo de nove dias, fizemos reuniões e encontros para discutir o problema e chegar à alguma ação. A última semana é uma das últimas de aula por aqui e então os erasmus começam a voltar para casa ou viajar. Portanto, tínhamos somente essa semana para fazer algo. Primeiramente, pensamos na necessidade de ser algo contínuo diante da impossibilidade de destruir de forma rápida um preconceito construído em anos. Pensar e propor ações em parceria com IPB, Câmara e erasmus que estimulem o debate e valorizem a diversidade cultural. No entanto, para além dessas propostas, queríamos mostrar, antes de irmos embora, que queremos mudanças e deixar clara a importância econômica e cultural da presença dos erasmus.
São mais de 500 estudantes estrangeiros por ano em Bragança vindos de 17 países diferentes e que tem uma despesa mensal, em média, de 400 euros, o que movimenta cerca de 1 milhão de euros por ano. Esses números justificam a importância da presença dos estudantes estrangeiros para essa cidade de 30 mil habitantes. Por isso, a necessidade de fazer de Bragança um ambiente em que essas culturas se manifestem abertamente e haja respeito e tolerância.
Pensamos numa mobilização pelo centro de Bragança demonstrando, através de apresentações e interações culturais, nossa diversidade. E através de flyers, a importância da presença dos erasmus em Bragança. Se, por um lado, nos deparamos com crianças, jovens a adultos preconceituosos, por outro encontramos aqui pessoas que estão em consonância com nossos pensamentos e que também desejam maior tolerância e interação cultural. Por isso, mesmo com pouco tempo para organizar a mobilização, tudo foi possível graças ao apoio da Junta de Freguesia da Sé, dois pubs (um ofereceu coffe-break e o outro patrocinou os flyers), do IPB (através do presidente da associação de erasmus) e da Câmara Municipal de Bragança. Além das Tunas e amigos portugueses que nos arranjaram instrumentos e também se juntaram ao evento. E, claro, tudo foi possível pela força e dedicação dos brasileiros, caboverdianos e turcos.
No meio de um janeiro que, mesmo muito frio, faz sol todos os dias, o dia da mobilização foi chuvoso do início ao fim. Além disso, os alunos estão em pleno período de exames. Esses fatores não contribuíram, mas também não nos desmobilizaram. Percorremos a cidade por onde poderíamos encontrar pessoas, até acabar os flyers e nossa energia de tocar e cantar de lá para cá. Antes de caminhar, fomos (muito bem) recebidos pelo presidente da Junta da Freguesia da Sé, o que foi importante para mostrarmos que a relação entre bragantinos e estrangeiros deve mudar e que estão abertos e apoiando essa mudança, institucionalmente falando.
No fim, a grande graça disso tudo, foi que nesses últimos dias acabamos promovendo, numa escala bem pequena, o que desejamos para Bragança: a interação entre as culturas. Nada mais divertido do que aprender a cantar crioulo, para acompanhar os caboverdianos, aprender a tocar ritmos trasmontanos caminhando por Bragança, ter as meninas do caboverde junto com as brasileiras fazendo coros de coco e no fim todo mundo cair na tradicional ciranda.
Como disse a Adê, para que o intercâmbio fosse além de uma mera experiência pessoal, essa 1ª Mobilização pela diversidade cultural foi a cereja desse bolo delicioso que foi viver em Bragança. Queremos voltar aqui. Queremos que mais pessoas conheçam, visitem e estudem aqui. E por isso nos mobilizamos. Por acreditar que pode ser diferente. O primeiro passo foi dado e tão logo a gente volta para o Brasil. Que, por aqui, a continuidade ocorra e portugueses e estrangeiros se respeitem e se encantem com as diferenças, que nos engrandece e nos faz mais humanos.