Ontem tive a oportunidade de assistir ao filme Quebrando o tabu na mostra O Amor, a Morte e as Paixões, que rola até o dia 9 no Cine Lumière do Shopping Bouganville. Para quem não está ligado, o documentário de Fernando Grostein Andrade ganhou grande repercussão por discutir a questão das drogas e tem como protagonista o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A obra consegue cumprir aquilo que se propõe: trazer boas reflexões acerca do tema abordado.
O filme faz um retrospecto do uso de drogas em toda história da humanidade, descreve o início da chamada “Guerra às Drogas” na década de 1970, mostra os danos do tráfico na América Latina e traz a experiência em diversos países nas políticas de controle da circulação dos tóxicos e redução de danos aos usuários. Um panorama bem completo de todas as forças que movem esse colosso de grana, poder e gente que é a estrutura do tráfico. Tirando os vacilos de projeção com travas na imagem e pipocos no som que já podem ser considerados clássicos das salas do Bouganville, a sessão foi bem interessante e produtiva.
Preciso dizer que enquanto princípio filosófico, eu defendo a legalização de todas as drogas. Insisto: como princípio filosófico. Acredito que o ser humano adulto e são deve escolher a forma de morrer. Seja com uma artéria entupida de tanto comer fast food, seja com o pulmão podre de tanto fumar cigarro ou baseado, seja de cirrose de tanto beber cachaça, seja de um AVC de tanto trabalhar 20 horas por dia. Entendo que é um direito inalienável do ser humano, repito, adulto e são fazer o que bem entende do seu corpo. Não interferindo no direito do outro, faça o que quiser de sua vida. É assim que compreendo o mundo.
Contudo, sei que a aplicabilidade dessa minha visão de mundo esbarra em uma série de pontos de ordem prática e cultural. Agora, o que transborda em obviedade, independente da visão de mundo, é a completa falência do modelo de combate e repressão às drogas que estamos empreendendo. E, nesse ponto, o filme é poderoso ao fornecer argumentos consistentes. Com todo volume de grana gasto, a oferta de drogas não diminuiu nos Estados Unidos – o país quem puxou essa política de repressão. E o que é mais grave: a droga circula até mesmo em presídios de segurança máxima. Ou seja, não dá para viver em um ambiente livre dos tóxicos.
Tendo como ponto pacífico que o combate fracassou, o questionamento seguinte é a respeito da política a ser adotada. Várias alternativas são sugeridas no filme: descriminalização ao molde português, política de redução de danos ao molde suíços, estabelecer pontos de venda ao molde holandês, trazer a maconha como droga menos ofensiva para a legalidade e focar no combate às outras mais perigosas como é sugerido por FHC e pelo médico Dráuzio Varella… Enfim, o debate é amplo e precisa ser aprofundado.
O problema é que se não quebrarmos o tabu como sugere o filme, ou mesmo queimarmos, e partirmos para uma discussão séria, tendo como paradigma que o referencial da repressão deu com os burros n'água, continuaremos a enxugar gelo e correr atrás do próprio rabo quando o assunto for drogas. Mais dinheiro no ralo por conta do combate ineficaz, mais gente morrendo na mão do tráfico, mais estrutura de poder para as máfias das drogas. Dizem que insistir em um erro é burrice. O que você me diz de insistir em um erro por mais de 40 anos?