Quando vi aqui no A Redação a matéria sobre o tiroteio que rolou ontem em frente ao Shopping Bouganville, refleti. Um dia antes, mais ou menos naquele horário, eu estava justamente ali, matando o tempo antes de pegar um cinema. Fiquei lendo um pouco naquela porta, observando o movimento. Dei uma volta pelos corredores. Sentei para tomar um café. Coisas típicas de quem precisa esperar para um compromisso. E, no dia seguinte, estavam balas voando para tudo quanto é lado justamente no local onde eu circulava. A única frase que me vinha enquanto eu lia a matéria é que a gente morre muito fácil. Fácil demais!
E olha que nesse caso ainda tive uma distância temporal grande, de 24 horas. Quantas e quantas pessoas não estavam passando por ali naquele exato momento. Quantas pessoas não escaparam de um balaço por ter se esquivado, abaixado, escondido, desesperado… Não acredito em destino, não acho que toda nossa vida esteja traçada a priori e penso que livre arbítrio é desculpa para quem chega a um ponto em que sua tese não se sustenta mais. E não quero entrar nesse debate, por favor, estou só dizendo qual a minha fé. Acho que a vida é só uma simples e magnífica sequência de acasos encadeados. Nada de mágico ou sobrenatural. Somente sorte ou azar.
Por essa vida ser louca demais é que não dá para ficar perdendo tempo com as questões menores, com as chatices rotineiras. A gente se preocupa demais se arranharam nosso carro no estacionamento do trabalho e toma uma bala na cabeça na porta de um shopping. Do que valeu o estresse por conta daquele dano mínimo? Não tenho esperança em continuação da vida após essa. Nem na volta. São só hipóteses. E, no campo das hipóteses, prefiro trabalhar na pior delas que é fim completo. Afinal, se tiver algo depois, saio no lucro. Se não tiver nada, eu também não tinha esperanças. Imagine você a frustração de quem passa uma vida crendo que o melhor vem depois e, quando o depois chega, não vive nada. Frustrar uma expectativa de tal porte deve ser de matar até o morto. Prefiro ficar sem essa.
Em outra perspectiva, ao mesmo tempo que a gente morre fácil demais e que a existência é muito frágil, em momentos opostos ela se mostra inacreditavelmente forte. Quando lemos notícias de mães jogando bebês que acabaram de chegar ao mundo nos locais mais insalubres, gente que sobrevive a não sei quantos tiros, batidas horríveis onde as pessoas saem vivas não se sabendo como, a reflexão é bem diferente: a vida também é forte. Mas, nesse ponto, sou conservador. Prefiro acreditar na fragilidade e me poupar das grandes emoções. Nesse caso, jogar um pouco na retranca se mostra mais prudente.
Por entender que a qualquer momento posso dar o tchau final e sem esperanças na segunda chance, aumenta muito o valor de cada minuto que vivo. E também a raiva de desperdiçar momentos com coisas pouco aprazíveis. Me esforço para que cada segundo seja pleno, evitando frustrações gigantes quando o acaso bater em nossa porta. E a única certeza é que ele baterá, seja velhinho e com a família feliz ao redor, seja de forma abrupta na porta de um shopping em um bairro nobre.