Logo

Poesia, Titanic e sincronicidade

19.01.2017 - 18:45:37
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Alguns estudos etnográficos apontam que a música, a dança e a poesia teriam surgido no ambiente dos templos religiosos do passado distante e entre os mais diversos povos. De forma peculiar, teóricos literários e do imaginário, como o francês Gilbert Durand,  já fizeram referência a uma instigante correspondência entre a prática e o etos do poeta e do profeta, que vão muito além de uma rima pobre entre os dois vocábulos.
 
Os exemplos possíveis são muitos e estão, na maioria das vezes, nas entrelinhas, como em “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade. Os versos finais desse poema da primeira metade do século passado diz que o leitor angustiado diante das agruras existenciais oriundas das injustiças do mundo não pode, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan, ícone do que alguns chamam de império americano.
 
Quando ocorreram os eventos do 11 de setembro de 2001, o poema drummondiano foi recordado como uma curiosidade algo profética em torno dos atentados terroristas. Já em  “Lira Itabirana”, Carlos Drummond volta a exercer o “poema-profecia” ao antever literalmente o contexto em que ocorreu o terrível acidente da cidade mineira de Mariana, o que foi amplamente noticiado pela mídia.
 
Uma ideia conexa à de profecia, no entanto, por vezes aparece em um ou outro poema e, em alguns casos, ela pode ser rastreada no tempo e no espaço: trata-se do conceito de sincronicidade. O estudo mais amplo sobre o tema foi realizado pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung. A sincronicidade é conceituada por ele em diversos de seus escritos. Num deles, escreve Jung que a sincronicidade é a “coincidência de um estado psíquico com um evento externo simultâneo mas distante no espaço”. Em outra oportunidade, o pensador europeu dirá que a sincronicidade é a “coincidência de um estado psíquico com um evento externo distante no tempo”.
 
A história das descobertas científicas está repleta de sincronicidades, caracterizadas pela descoberta de princípios científicos e invenções tecnológicas que ocorreram através de pesquisadores e cientistas que realizavam trabalhos idênticos sem se conhecerem e sem estarem informados do que o outro realizava. Isso, naturalmente, numa época em que as comunicações não haviam atingido a maximização da eficiência como ocorre hoje na era digital, quando o mundo se encontra conectado à rede global de computadores.
 
POESIA E SINCRONICIDADE
A par do caráter algo profético que alguns pesquisadores de literatura vêem no etos poético, o gênero comporta também uma abordagem sob a perspectiva da sincronicidade junguiana. Um exemplo instigante do que apresenta o estudioso suíço acerca da sincronicidade pode ser percebido no poema “Alucinação à beira-mar”, do poeta pré-modernista Augusto dos Anjos.
 
Essa poesia integra o volume único que foi publicado por Augusto dos Anjos em 1912 sob o título de “Eu e outras poesias”. A data exata do lançamento é difícil de rastrear, pois se trata de uma publicação do autor, que não pôde contar com os dados catalográficos de editoras que precisassem a data exata de lançamento. Alguns poemas foram acrescentados, após a morte do poeta, em reedições póstumas.
 
“Alucinação à beira-mar” é um soneto que apresenta uma singular sincronicidade imagética com os eventos que ocorreram em abril de 1912 envolvendo o transatlântico Titanic, no que ficou celebrizado como um dos mais terríveis naufrágios da história náutica. As imagens filmográficas apresentadas por James Cameron em sua versão cinematográfica do acidente com o grande navio são de extraordinária simetria com os versos do poeta brasileiro, conforme pode ser constatado na transcrição do poema:
 
ALUCINAÇÃO À BEIRA-MAR
Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o telúrico recorte, 
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadamente ribombava! 
 
Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!… O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus números negros, me assombrava!
 
Mas a alga usufrutuária dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,
 
No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenados à Morte, assim como eu!
 
Poeta da terminologia cientificista e dos termos pouco comuns ao imaginário da poesia, como “verme”, “podridão” e “carnificina”, dos Anjos apresenta em “Eu e outras poesias” imagens incisivas sobre a morte e suas transformações bioquímicas. O autor já terá merecido estudos que contemplam um glossário sobre os termos científicos e inusuais dos seus poemas, o que se revela bastante útil para compreender-se que “malacopterígios subraquianos” são pequenos peixes com nadadeiras amolecidas e algo deformadas pela impetuosidade oceânica.
 
Alinhando os dados da sincronicidade, portanto, tem-se um poeta diante do mar que observa um aspecto colossal da vida marinha que o leva a visualizar imageticamente “corpos de vítimas” condenados à morte como, de resto, o eu lírico também está. O primeiro e o segundo verso remetem, por sua vez, ao que poderia ser pensado como uma referência aos corpos enregelados dos náufragos apresentados por Cameron em sua épica produção.
 
A singular sincronicidade se apresenta, ainda, no fato de que o poema de Augusto dos Anjos vem a público no mesmo ano dos eventos envolvendo o Titanic, apresentando uma reflexão pessimista do poeta sobre o recorrente tema da morte, tendo o mar como elemento desencadeador de sua reflexão. Curiosamente, esse mesmo mar apresentaria naquele ano a materialização em cores trágicas das ilações do poeta. Assim, a sua alucinação à beira-mar estaria mais para uma vidência à beira-mar, desveladora de uma sincronicidade com ares de profetismo.
 
*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da UFG; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gismair Martins Teixeira

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]