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Para não morrer de amor

06.02.2012 - 12:43:03
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Antes de tudo, é preciso deixar claro que este é o texto mais difícil que já escrevi para esta coluna, pelo tema e pela intensidade de sentimentos que envolve. Talvez por isso, seja também o mais especial. Quarta-feira passada meu telefone tocou. Do outro lado, uma voz feminina disse: “Oi Fabrícia, tudo bem? Você não me conhece, mas há algum tempo você escreveu um texto sobre a minha filha. Queria conversar com você sobre isso”.
 
Na hora entendi que se tratava da mãe de uma jovem que morreu num acidente de carro, em agosto do ano passado. A história me chocou tanto na época, que escrevi o artigo “Dieta das migalhas de amor”, publicado em A Redação. A jovem vivia um relacionamento conturbado com o namorado. Depois de uma briga, pegou o carro no meio da noite e decidiu ir até a casa dele para conversar. Transtornada por causa da discussão, ela perdeu o controle da direção e chocou-se contra um poste, na avenida em frente ao meu apartamento.
 
Quando a mãe da moça ligou, pensei que queria me dar uma bronca. Embora eu não tivesse citado o nome da filha no texto nem dado detalhes do local do acidente, talvez ela tivesse se sentido exposta, ou ficado magoada pelo fato de seu drama familiar ter virado tema de um artigo. Marcamos um café e fui preparada para um puxão de orelhas. Mas, ao contrário do que eu poderia imaginar, aquela mãe me recebeu muito bem e elogiou o texto. Disse que viu claramente a filha na história que contei e que, apesar da dor imensa que sentia, não queria que a morte da jovem fosse em vão.
 
“Já faz seis meses que minha menina se foi. Eu queria muito alertar as moças que se encontram na mesma situação que ela, para que se cuidem e não tenham um destino igual. Não é possível que tanta tristeza não sirva para nada. Será que você poderia fazer um texto sobre isso?”, perguntou ela. É claro que posso. Quem negaria um pedido desses? A jovem era linda, cheia de vida, inteligente e repleta de amigos. Infelizmente, viveu uma paixão intensa, que corroeu sua autoestima. Obcecada pelo namorado, fazia de tudo para agradá-lo e anulou-se completamente por ele.
 
E não, ela não fez isso por falta de uma base sólida de afeto. Veio de uma família unida, estável e amorosa. Cresceu vendo os pais se respeitarem, num casamento de grande harmonia. O que ela viveu foi uma paixão avassaladora por alguém que não soube amá-la com a mesma intensidade. Uma paixão não correspondida, dessas que nos fazem perder o rumo e juízo, que minam a gente por dentro. Por isso, cara leitora, o recado que a mãe dessa jovem quer eu lhe dê é o seguinte: se você está profundamente apaixonada por alguém que não lhe valoriza, se faz de tudo para conquistar essa pessoa e ela parece não se importar, se a relação é triste e nociva e, ainda assim, você não consegue sair dela, cuidado.
 
Busque ajuda o mais rápido possível. Abra-se com alguém da sua confiança, procure um psicólogo ou um médico. Não tenha vergonha de se expor. O limite entre uma paixão avassaladora e a obsessão é tênue e, às vezes, a gente custa a perceber. Infelizmente, o caso é mais comum do que se pensa e muitas outras mulheres também passam por isso. Se seu amor próprio estiver tão pisoteado e enfraquecido que você não consiga lutar por si, lute por amor aos seus. Pense no enorme sofrimento da sua família e dos seus amigos ao vê-la nesse estado, sem receber o afeto que merece, mendigando um pouco de atenção, muda, opaca, sem vida. 
 
Não se engane, querida leitora. Aqueles que nos amam de verdade sofrem tanto ou mais do que nós em situações assim, pois se sentem impotentes perante nossa  autoestima esfacelada. Perceba que não se pode amar tanto alguém, sem que sobre nenhum pouquinho de amor para você mesma. Que se alguém só recebe afeto e não devolve, é porque não merece ocupar o lugar que ocupa no seu coração. E que tudo, absolutamente tudo, passa, apesar de você hoje não acreditar nisso.
 
Não se perca, como a jovem do artigo se perdeu. A tristeza para quem fica é grande demais. Resta uma saudade, que como disse Chico Buarque, “é o revés do um parto, é como arrumar o quarto do filho que já morreu”. É uma dor sem nome, como bem colocou a mãe enlutada que conversou comigo: “Quem perde o marido fica viúva, quem perde a mãe fica órfã. E quem perde uma filha, fica o quê?”. Essa mãe é uma mulher forte. Tem a fala tranqüila, lúcida e ainda busca (e encontra) razões para seguir. Mas é justamente essa força que, de forma paradoxal, evidencia o tamanho de sua dor. A cada vez que ela sorri, fica claro que há grande um esforço para isso, e que ela acorda, trabalha, come, deita e toca a vida “apesar de”. 
 
A mãe não quer transformar a filha em mártir. Sabe que a moça era “cabeça dura” e voluntariosa. E que, apesar dos apelos da família para se cuidar e terminar o namoro, não escutava ninguém e teimava em fazer só o que queria. Mas com você pode ser diferente. Com você, querida leitora, ainda há tempo de ser diferente. Lembre-se que o amor, quando é de verdade, é como uma mão amiga estendida num dia sol, que nos convida a passear e a ver o que vida tem de mais bonito. É como a mão dessa mãe, que resgata a filha do limbo do esquecimento, transforma a dor em solidariedade e guia rumo à luz quem está na escuridão. 
 
Pensando bem, essa moça não morreu por falta de amor. Da mãe ela recebeu a maior prova de afeto que alguém já poderia ter recebido, uma demonstração que transcende a vida e prova que Drummond estava certo. Afinal, foi ele quem disse que o “amor é primo da morte/ E da morte vencedor/ Por mais que o matem (e matam)/ A cada instante de amor.”
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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