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A urgência do cinema de Vincent Carelli

24.04.2017 - 09:18:00
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Goiânia – O paraíso idílico vivido pelo soldado desertor interpretado por Jim Caviezel (Witt) em Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, 1998), numa ilha do pacífico sul durante a segunda guerra mundial, contrasta com o conflito que logo se instalaria. Ele se encanta com os hábitos e costumes de uma tribo melanésia cujos habitantes convivem em extrema harmonia e pachorra. O sonho do paraíso é desfeito, a dura realidade vem à tona quando Witt se vê obrigado a retornar ao exército e participar de uma guerra que é uma afronta à própria natureza.
 
Em Martírio (2016), documentário obrigatório de Vincent Carelli, a ganância e a sordidez humanas são escancaradas à medida que os índios Guarani-Kaiowá são expropriados, pelo governo e pelos fazendeiros, de suas terras em nome do progresso e da civilização. A vida é posta de lado para atender interesses escusos que são frutos de uma ambição desmedida movida pela ganância do homem branco que não mede esforços para exterminar aqueles que se opõem em seu caminho. 
 
Um discurso afamado em Corumbiara (2009), filme de Carelli que dialoga diretamente com seu recente trabalho, de um advogado dos latifundiários comprova a incapacidade de compreender os índios, uma vez que ele insiste que os americanos cresceram somente após a marcha para oeste que vitimou milhares de índios. Os fins justificam os meios, não importam as vidas, mas sim o progresso, a qualquer custo.
 
As imagens de Martírio são poderosas e levam as lágrimas. Carelli não se esconde e assume claramente uma posição de resistência e de um humanismo singulares. Como ocorre com o personagem Witt, o documentarista desenvolve laços inquebrantáveis à medida que ele conhece os costumes e o espírito de compreensão e de colaboração entre os índios. O comportamento benigno inerente a eles já havia sido apontado historicamente pelos jesuítas e bandeirantes. Um contraponto marcante em relação ao comportamento tacanho de um seleto grupo de pessoas que acredita que os fins justificam os meios e que vale tudo, inclusive, dizimar os reais donos das terras envolvidas.
 
Há um recorte histórico pungente e meticuloso traçado por Carelli, por meio de um rico material de pesquisa, que vai à gênese do conflito, desde a Guerra do Paraguai e perdura até os dias atuais com o agronegócio, que não reconhece a legitimidade dos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. A narrativa desconcertante, imiscuindo passado e presente, é conduzida com maestria pelo habilíssimo diretor. Carelli aponta os dedos, não se omite e desfere um duro golpe no Estado brasileiro: “Foi o Estado que levou a essa expropriação das terras indígenas. Quem arrendou e depois loteou essas terras, quem se omitiu no reconhecimento, tudo isso quem fez foi o Estado, num processo que começou no Império e prossegue ao longo da história recente.”
 
Martírio é um documento obrigatório e definitivo sobre a questão indígena no Brasil. Até quando o massacre e a morte dos índios serão tolerados? Não é possível que o Estado permanecerá omisso e permitirá que eles sejam dizimados em nome de um processo “civilizatório” e do crescimento econômico. As atrocidades devem ser cessadas e as vidas humanas, preservadas. O direito às terras é legítimo aos índios. As vidas humanas não podem valer menos do que cabeças de gado. Carelli edifica um compêndio basilar e promove um grito de alerta excruciante diante de uma realidade escondida nos confins do país, e que não pode ser olvidada. 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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