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Vida no deserto

15.02.2012 - 12:11:10
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Talvez uma das experiências mais incríveis que já vivi: viajar até o deserto do Saara. E queria enfatizar a palavra até. A graça do passeio está em tudo que se vê e vive até chegar ao deserto. Lá mesmo, passamos pouco tempo. De Marraquexe até Merzouga são 12 horas corridas de van. Esse tempo eu percebi na volta, porque a ida demorou dois dias: parando e conhecendo esse outro mundo que cerca o deserto. Três dias dividindo van, camelos, tendas no deserto e essa experiência surpreendente com três holandesas, três poloneses, oito brasileiros, uma novaiorquina (de mais de 60 anos), além do motorista e copiloto, marroquinos.

Na verdade, só de ter essa babilônia nesses dias já foi demais. Diferentes vidas, realidades, culturas, experiências com um interesse em comum: viver o diferente. Diria que essa viagem ao deserto é um equilíbrio perfeito entre turismo e aventura. Porque ser turista é mesmo uma porcaria. Não consigo não achar ridículo um grupo de gente com câmeras penduradas, conhecendo as coisas rápida e superficialmente, vivendo emoções rasas e parecendo que tem sempre alguém lucrando em cima disso de forma meio “espertinha”. E, no início, achei que lá estava eu pertencendo a um grupo desses. Guias que aparecem de última hora e depois cobram seus dirhams, restaurantes já pré-combinados em que os preços são mais salgados, toda hora parando a van “stop for picture, stop for picture”.

E, por outro lado, viver aventura significa passar perrengue. São aquelas histórias que são legais contar depois, mas na hora você não para de rezar e pedir para aquilo acabar. Como num acampamento de três dias que vivi na Nova Zelândia há cinco anos, com a turma de Outdoor Education da escola. O rafting virou numa parte perigosa do rio e quase morremos todos afogados. Depois no tracking pelas montanhas nos perdemos e nem helicóptero conseguiu nos encontrar. Quem me vê contando isso hoje pode até achar que adoro uma adrenalina, mas na hora só pensava que nunca mais iria reclamar de fazer provas todas as sextas à tarde. Era tudo o que eu queria, ao invés daquela “avaliação” de fim de bimestre.

Nesse passeio, apesar do quê turístico, deu para viver um pouquinho de aventura. Ou, no mínimo, ter emoções e nos aproximarmos do deserto e da vida que lá existe de forma digna. E é isso mesmo, ao contrário do que a gente imagina, há muita vida no deserto. Dessas completamente diferentes das que a gente vive. Estou falando de gente nômade, de homens que cuidam de ovelhas no deserto para as mulheres fazerem tapetes com suas lãs, de homens que conhecem as dunas, que mudam toda noite a cada vento, como a palma da mão.

A primeira parada nesse passeio para o deserto foi numa montanha de neve. Isso mesmo, neve e montanha na mesma frase que deserto. No mínimo surpreendente ver e sentir essa paisagem que divide espaço com cactos. Depois fizemos muitas paradas em cidades de areias. Sabe o filme Babel? Era isso, a gente estava naquele cenário, exatamente onde foi filmado. Também Gladiador, Príncipe da Pérsia e outros mais. Mas me refiro primeiramente a Babel porque não quis me referir somente ao cenário, mas ao filme em si. Como os personagens, éramos turistas num terreno absolutamente estranho e diferente, imersos em vidas e cotidianos completamente distantes dos nossos.

Pelos labirintos que subíamos nas cidades, para além dos cenários de filmes, havia vidas em cada portinha das casinhas de areia. Mulheres cuidando dos afazeres domésticos, homens cuidando dos burros, crianças pedindo dirhams. Era lindo aquilo tudo, e o guia queria nos mostrar justamente essa beleza, a arquitetura daquele local, mas eu queria mesmo era saber dessas vidas ali dentro. Queria saber do cotidiano dessas pessoas, como vivem, como se relacionam.

No segundo dia do passeio, essa vontade seria saciada. Em outra cidadezinha de areia que entramos com um guia, ele foi nos mostrando a agricultura do local, como produzem seus alimentos até nos levar ao seio da casa de uma família berbére, povo da região sul do Marrocos. Fátima, irmã de Mohammed, nos esperava numa sala onde tiramos os sapatos para entrar. Ela produzia tapete e nos recebia com muita alegria, apesar de não falar uma palavra em inglês.

Mohammed nos contou que eles são uma família de nômades. Os irmãos estão no deserto cuidando das ovelhas e camelos. O pêlo desses animais será material para o sustento da família. Ali na casa ficam Fátima e as outras mulheres produzindo os tapetes. Nenhum deles pode ser confeccionado em menos de seis ou oito meses e são somente as mulheres que podem tecê-los. A partir dos dez anos de idade as meninas, observando as mulheres da família, começam a aprender a técnica. E somente com 20 anos de experiência é que podem produzir os tapetes que serão comercializados.

Além de pêlo de camelo e ovelha, cacto também é utilizado como material para confecção. As cores vêm de produtos naturais, como o amarelo do açafrão e o verde da alfafa. Comerciantes de Marraquexe compram esses tapetes dessa família e os comercializam a preços até quatro vezes mais caros na capital.
Em meio a chás, cores e texturas, Mohammed e Fátima nos contaram isso tudo, que é a vida deles. Não digo só sustento, é o modo de vida, a motivação, tradição e, notoriamente, o orgulho dessa família berbere. Por trás dos altos dirhams de cada tapete, estão não só a beleza explícita, mas essas histórias, detalhes e cuidados. Para mim, ter entrado nessa casa, tomado esse chá ouvindo essas histórias, já tinha valido a viagem ao deserto. Apesar das dunas
ainda estarem longe.         

Mas voltando ao quê de aventura, quase tivemos um acidente grave com a van e, em seguida, o pneu estourou em pleno deserto. Said era o nome do motorista louco e engraçado que guiava o automóvel. Acho que Said deve significar emoção em árabe, porque esse motorista nos colocou em cada uma. Além das ultrapassagens arriscadíssimas descendo as montanhas, quase bateu num carro em plena reta e, para isso não acontecer, jogou a van para o barranco e não capotamos, por milagre de Alá. A viagem seguiu e quando o pneu estourou, jogamos futebol no deserto com crianças berbéres que tinham na beira da estrada.

Ao fim do dia, finalmente, chegamos às tão esperadas dunas. Era ali no seio do Saara que dormiríamos em tendas sob o céu estreladíssimo. Para chegar até lá, claro, dromedários. No início achei meio ridículo aquele bando de turista em cima desses animais amarradinhos um ao outro e o homem do deserto a frente, a pé, puxando a fila. Depois da primeira meia hora, deixei de achar besta. A viagem a dromedário era mesmo meio longa e a sensação é que estávamos perdidos no deserto. O sol foi embora, veio a lua, que deixou tudo absolutamente iluminado. De ridículo comecei a achar surreal: aquele deserto claro, quase brilhando, eu em cima de um dromedário, sem a mínima noção de onde estava, sendo guiada por um nômade.

Chegamos à tenda, onde tomamos chás e comemos tajine à vontade. O cansaço me levaria direto aos colchões e cobertas da tenda ao lado, se não tivesse ouvido os barulhos de tambor vindo dali de perto. Os nômades que puxavam os camelos, os homens do deserto, fizeram uma fogueira e batiam os ritmos berberes sentados na areia. É claro que todo mundo ficou ali reunido: pelo calor da fogueira (frio absoluto no deserto), pela alegria e excentricidade do momento. Nos ensinaram o ritmo e quando vi, estava ali, batendo os tambores, interagindo e me divertindo com homens do deserto.

A noite é memoravelmente fria. O vento de doer te acorda o tempo todo, apesar dos três cobertores. E dormimos sob tapetes, ali nas areias. Sem banheiro, sem banho, nos acordaram com o céu ainda escuro para tomarmos café. Pegamos os dromedários antes do nascer do sol. A caminho de volta para a van, no meio das dunas, com silêncio absoluto de trilha sonora, o sol subia. De fato, acho que serão poucas cenas que vão me marcar e encantar tanto como essa. Pela beleza, naturalidade e grandiosidade. Aquela sensação de não desejar que termine. Por mais que estivesse exausta, que montar aquele bicho fosse cansativo, não queria que chegasse até a van. Queria sentir mais aquele deserto, estar mais tempo entre aquelas dunas. Da van, olhei para trás e me despedi do deserto. Como olhar o mar e tentar entender seus mistérios e grandiosidade. E, da próxima vez que ouvir essa palavra, deserto, não vou entender como algo sem vida, parado. Vou me lembrar das vidas que ele carrega, do seu silêncio e da sua majestade.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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