Logo

Só Resta uma Lágrima

15.05.2017 - 09:26:51
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – É inerente ao melodrama por excelência uma infatigável faculdade de provocar a emoção, permitir a quem assiste a ele debulhar-se em lágrimas em relação à trama traduzida ao ecrã pelo realizador. Não há truques ou artifícios que tentam ludibriar o expectador para forçar emoções frágeis que não se sustentam, mas sim uma aposta na discrição dos sentimentos para que eles cheguem diretamente ao público, sem firulas, e que são capazes de arrebatar e extrair o choro até mesmo de quem é incapaz de demonstrar quaisquer sensações. Quando se pensa neste gênero, o nome de Douglas Sirk invariavelmente é rememorado. Só Resta uma Lágrima (1946), dirigido por Mitchell Leisen, é um grande exemplar do gênero e, infelizmente, subestimado ou pouco visto.
 
A trama escrita por Charles Brackett, escritor americano, roteirista e produtor de cinema conhecido por sua colaboração com Billy Wilder, eclode em um turbilhão de sensações, envolvendo acima de tudo uma força propulsora que perpetua as relações humanas: o amor. Por meio de uma narração em flashback, Josephine “Jody” Norris (Olivia de Havilland) narra sua vida. Durante o ano de 1918, antes do fim da primeira guerra mundial, em sua juventude, a personagem em Piersen Falls, sua cidade natal, rejeita duas propostas de casamento e, quando ela conhece Bart Cosgrove (John Lund), envolve-se de corpo e alma. Desta súbita paixão, surge uma gravidez. Ele retorna à guerra e é morto em combate. O médico de Jody a convence a abortar a criança, mas no instante em que ela recebe a notícia do falecimento de seu amado, prontamente, decide, em uma cena belíssima, ter a criança para preservar uma fagulha do seu amor.
 
Por pertencer a uma era consolidada pelo conservadorismo e para evitar um escândalo, ela decide ter o bebê secretamente. É arquitetado um plano para que Jody possa adotá-lo, posteriormente, alegando que se trata de um órfão de guerra. Os planos caem por água abaixo quando a criança é entregue à Corinne Piersen (Mary Anderson), que se casara com Alex (Phillip Terry) e cujo filho acabara de falecer. Ida Lupino, grande diretora, três anos após o lançamento da obra de Mitchell Leisen, realizou Not Wanted (1949), uma película que dialoga com o longa protagonizado pela estupenda Olivia de Havilland, agraciada pelo Oscar, visto que, no debute de Ida Lupino, uma garçonete é expulsa de casa por ter uma criança fora do casamento sendo obrigada a doar seu filho recém-nascido para uma instituição de caridade.
 
A transitoriedade do crescimento provoca sentimentos conflitantes e vai da ingenuidade de sua juventude ao comportamento impregnado por um rancor influenciado por sofrimentos vividos ao longo de sua vida. Jody passa a visitar Gregory, seu filho, a quem o apelida de Griggsy. Após a morte de seu pai, ela vende a farmácia e pede à Corinne que a coloque como babá do garoto, mas ela apresenta uma postura irredutível diante da proposta, uma vez que Alex é apaixonado por Jody.  Após a negativa, Jody apresenta a certidão de nascimento e confessa ser a mãe da criança. Ela se muda para Nova York e constrói um negócio muito rentável de cosméticos. Quando se depara com a dificuldade financeira do casal, Jody chantageia Corinne e Alex oferecendo-lhes uma boa quantia financeira.
 
Griggsy muda-se para a casa de Jody, mas não se adapta e sente a falta de seus pais adotivos. Em um dos momentos mais sublimes e tocantes da película, ela conta ao garoto que ele foi adotado, e ele retruca de bate-pronto que esta atitude reflete uma prova de amor. Ela decide devolvê-lo, viaja a Londres e se debruça incessantemente no trabalho para aplacar sua terrível dor. Há um salto no tempo e a trama se instaura no período da segunda guerra mundial, e é neste período que ela encontra o filho, que se tornou tenente e é piloto da 8ª Força Aérea e se encontrava de licença em Londres para se casar. É neste instante em que há uma reviravolta que culmina em um dos momentos mais altivos do cinema.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]