Logo

Na simplicidade, Deus

26.05.2017 - 21:12:56
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Seu João vive no interior. E gosta de viver no interior. Não conhece as grandes cidades. Mas não sente falta. Gosta do lugar em que nasceu. Das montanhas que protegem seu vale. Dos riachos. Dos cantos que inauguram seus amanheceres. Identifica os pássaros. Os de canto curto. Os de canto prolongado. Os mais barulhentos. Os mais afinados. E não se incomoda com os galos madrugadores.
 
Gosta do mexer sem pressa a xícara de café, enquanto olha pela janela. A paisagem é sempre a mesma. Nunca é a mesma. Nos dias frios, aconchega-se em um velho cobertor de lã. Velho, mas valioso. Para ele. Pelos dias que foram aquecidos. Pela mulher que já partira. Doente. Valente. Morreu Adélia no inverno. Fazia frio quando o sino da cidadezinha chorou as badaladas tristes. Os amigos foram. O padre lembrou as caridades que Adélia fazia. Era cantora, também. Cantora de Igreja. Afinadíssima como alguns passarinhos, na opinião de João. Por que morrera antes dele? Porque é assim. Preferiria que partissem juntos. Mas não dependeu dele. O que dependeu ele fez.
 
Amou. Cuidou. Tomou os cafés sem pressa reparando na sua mulher.Que era sempre a mesma. Que era sempre diferente. Conheceu Adélia ainda menina. Gostou do nome e do jeito. Tímida. Recatada. Ensaiou alguma aproximação. Foi feliz. Foram felizes. 
 
Os dias que viveram juntos anteciparam o que acredita João ser o Céu. Amor em abundância. O pouco que tinham, dividiam. Nada de trancafiamentos. Nada de mesquinharias. Nem nos sentimentos. Nem nas posses. Poucas posses tinham os dois. Não tiveram filhos. Tiveram momentos regados por dizeres e pausas. Juntos. Seu João lembra da amada todos os dias. Sem as dores dos primeiros dias sem ela. Lembra até com alguma alegria. Das coisas engraçadas. Dos erros que cometeram. Dos acanhamentos.  Em dias de festa, quando havia gente de fora da cidade, Adélia tinha vergonha de cantar na Igreja. João sabia disso e, por isso, ficava mais junto dela. 

Há crianças na rua em que Seu João mora. Ele é aposentado. Tem tempo para contar histórias. E gosta de fazê-lo. No passado, trabalhou na estrada de ferro. Gosta de falar sobre o trajeto dos trens. Sobre a época em que havia passageiros. Sobre as mulheres que chegavam com vestido gordo e chapéu elegante. Sobre os homens que achavam a cidade muito pequena. 
 
Conta histórias que contaram para ele. Sempre dá um jeito de falar de Adélia, da cantora que canta no Céu. Foi quando Felipe quis saber onde ficava o Céu. Seu João olhou para o alto. Abaixou o olhar. Colocou a mão no coração. Apertou. Fechou os olhos. Abriu os olhos. Respirou profundo. Deu um sorriso. E respondeu: Quem sabe?
 
Sorriu novamente e certificou: Que existe, existe. Leninha pediu outra história. Felipe insistiu nos questionamentos: E Deus?O que é que tem?, devolveu Seu João. Onde mora Deus? Seu João aproveitou a pergunta e perguntou para as crianças. Cada uma respondeu o que quis.No Céu;Em todo lugar, Na Igreja

No coração da gente;. E a cena seguia naquele interior. Seu João sorria e agradecia por viver ali. Pensava ele, consigo mesmo, numa frase que alguém um dia falou: Na simplicidade, Deus. Contou a história, para aquelas crianças, de uma mulher que chegou à estação e não sabia para onde ir. Bonita, mas sem destino. E, na estação, encontrou um homem meio desanimado da vida. Alguma nuvem se apressou e o sol pôde iluminá-los. E, juntos, mudaram um ao outro. E foram felizes.

O amor faz essas gracinhas. Levantou-se e foi até a velha cozinha. Tirou a tampa de um pote de vidro alto e retirou os biscoitos de polvilho. Ajeitou tudo em uma tigela e levou para as crianças. Sentou-se novamente e foi servindo uma a uma. Esqueceu-se do suco. Disse que já pegaria. Enquanto mordia aquele biscoito, fechava os olhos e se lembrava do quanto era boa a vida. 

 
Felipe se ofereceu para pegar o suco. Ele agradeceu. As crianças queriam mais histórias. Ele queria contá-las. Vez ou outra, ele se interrompia para explicar o pio de algum passarinho. O entardecer já chegava. Foi quando Seu João pediu algum silêncio para que vissem juntos mais um pôr do sol.  Enquanto via, ele pensava nas perguntas. “Onde fica o Céu?”. “Onde mora Deus?”.

*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gabriel Chalita

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]