A Quarta-feira de Cinzas fez jus ao nome. Ontem, uma jovem de 21 anos foi morta com um tiro no rosto ao reagir a uma cantada. O crime ocorreu em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A moça estava se divertindo com os amigos e, ao se recusar a corresponder à paquera de um homem, foi assassinada por ele.
Coisa de gente louca, baixaria de periferia? Que nada. O tal do machista despeitado está presente em todas as classes sociais. Independente do nível escolar e da conta bancária, ele não sabe ouvir não e tem resistência zero à frustração. Acha que é o centro do universo e tem orgasmos múltiplos quando se olha no espelho.
Tive a prova disso na segunda-feira. Depois do cinema, enquanto esperava na fila para pagar o estacionamento do shopping, ouvi a conversa de dois homens. Um deles dizia: “Comigo não tem mais essa história de não ter sexo no primeiro encontro. Eu já caio matando e ataco no carro ou levando direto pro motel. Quero sexo e pronto!”
O troglodita explicava ao amigo que não estava nem aí se a mulher não quisesse transar com ele. “Se precisar, faço à força mesmo. Não agüento frescura. Com esse tanto de mulher dando sopa em Goiânia, estou é prestando um favor a elas, que iriam morrer na seca se alguém não fizesse a caridade de comê-las”.
Ficou chocado? Eu também. Já ele, nem um pouco. O cara era bonito, bem vestido e dirigia uma Pajero. Provavelmente deve ter estudado em boas escolas e dispor de bom poder aquisitivo. O que não o impede de achar que as mulheres são seres inferiores e existem apenas para satisfazer as necessidades dos homens.
Aliás, nem sempre a forma que o machista despeitado encontra para punir aquela que não realiza seus desejos é a violência física. Pode ser também a agressão psicológica, a humilhação. Se a mulher estiver exausta por causa dos filhos e do trabalho e disser não ao sexo com o marido, pode acabar traída. O machão procura fora de casa uma “fêmea” que cumpra sua “obrigação feminina” de transar sempre que ele quiser.
Se a mulher diz não ao comodismo do marido machista e decide investir na carreira para construir um patrimônio sólido e viver com conforto, também paga caro por isso. Ele passa a reclamar do trabalho dela sem parar, põe defeito em tudo e transforma a vida da parceira num verdadeiro inferno. Ela precisa aprender a ser pobre e calada.
Quando o não que a mulher diz é para a relação em si, aí é que o bicho pega mesmo. Se ousar acabar com um relacionamento de anos contra a vontade do machistão, pode se preparar para ser difamada aos quatro ventos. Será chamada de frígida, galinha, vagabunda e aproveitadora. Provavelmente também terá dificuldade em receber a pensão dos filhos e em dividir os bens do casal.
Sem falar, é claro, nos requintes de crueldade. Se o machistão souber que a mulher vai dizer não à infidelidade dele, esconde dela que tem namorada ou é casado e age como se fosse solteiro. Depois de meses ou anos, quando ela já está emocionalmente envolvida, ele dá a facada. Tira dela o direito de escolher se vai se envolver com um homem comprometido ou não e mente sem pudor.
É claro que há homens maravilhosos e que a arrogância de obrigar alguém a fazer o que se quer por bem ou por mal não escolhe gênero. No entanto, desconfio que entre o público masculino esse tipo de comportamento seja bem mais comum que entre o feminino. Está aí o caso da garota Eloá que não me deixa mentir.
Tento me lembrar de alguma mulher que tenha seqüestrado o namorado e torturado o moço por dias num apartamento, para depois matá-lo a tiros porque ele não a quis, mas não consigo. Busco no Google mulheres que jogam ácido ou soda cáustica nos parceiros que as abandonam, que estupram, batem, mutilam ou mantêm o homem preso anos a fio por levar um fora dele, mas não encontro.
Mulheres não são anjos e também podem ficar descontroladas e violentas diante de uma paquera ou de um amor não correspondido. Mas se formos pesar na balança, é do lado masculino que vemos as piores reações. Diante de um fora, muitos liberam o homem de Neandertal que existe dentro de si e saem por aí com o tacape nas mãos.
Como dizem os goianos, o machistão pensa que a mulher “está pegando o boi” ao ser cantada por ele. E é isso mesmo. Ela pega o boi pelo chifre e o conduz até o curral. Finge agradar o bicho, para depois deixá-lo trancado, em regime de confinamento total. Porque homem que age como um animal quando está com uma mulher tem mais é que pastar.