E então as reticências deram continuidade à coluna. Pois é, a experiência lá fora acabou, mas continuo a falar para vocês das coisas que vejo por aí e acabam sendo digeridas nessa cabecinha. Dessa vez, talvez, coisas mais próximas, mais goianas, mais tupiniquins. O natural, hoje, seria eu falar da volta, né? Do que aconteceu depois daquele dia no aeroporto, em que eu ainda estava cheia de dor de ir embora e de ansiedade em chegar. Então eu poderia citar a lista enorme de desejos gastronômicos brasileiros que realizei, do calor inacreditável que passei, da emoção em rever tanta gente amada e da sensação de que nada mudou. Mas hoje é dia das mulheres e é disso que vou falar.
Por todos os cantos, comemorações. Empresas, órgãos públicos, lojas, sindicatos e onde mais existir mulher presente. Dignas e necessárias comemorações. Mas o problema de datas comemorativas é quando a gente acaba esquecendo porque mesmo estamos celebrando aquilo. Como acontece em Natal, Páscoa, Proclamação da República ou Dia da Independência. Ou quando essas datas são somente pretexto para consumo. Mas, pior ainda, quando as comemorações são contraditórias à data comemorativa em si.
Não sou boa com números, mas vou fazer uma média de nove em cada dez releases que li ontem, informando sobre as comemorações do dia das mulheres, a palavra beleza estava no meio. Sorteio de cosméticos, oficinas de maquiagem e entrega de brindes (batons, claro). Então significa que mais de 150 anos depois do episódio em que mulheres operárias foram incendiadas numa fábrica por fazerem greve cobrando melhores condições de trabalho, comemoramos esse dia colocando as mulheres para fazer maquiagem?
Claro, adoramos ficar bonitas. Não é o que questiono. É que essa ideia me faz pensar num reducionismo gigantesco da mulher em sua aparência, seu corpo, sua apresentação à sociedade para arranjar um marido ou, depois, para agradá-lo. Depois de conquistar autonomia se afirmar nos espaços públicos, ser reconhecida no trabalho e na política, ainda somos um corpo? Uma mera aparência? Por isso, parabenizo e admiro os órgãos e empresas que fizeram desse dia um momento para refletir, por exemplo, sobre a violência doméstica. Que sabem que ainda estamos num caminho e a comemoração é coerente com o significado da data.
Mas esses releases todos me fizeram pensar: que tipo de mulher, brasileira, é a gente?A quem vão os parabéns nesse dia? Lembrei, de um lado, dos meus dias na Alemanha, em que cozinha é lugar de homem sim. Não, não estou falando de homem que vai de vez em quando para o fogão mostrar seu novo prato. Estou falando de dia-a-dia, de lavar pias cheias de louças e de fazer almoço segunda-feira. E também me refiro a típicas situações tradicionais de festa em que os homens estão em alguma roda conversando e as mulheres com a mão na massa. Lá era tudo misturado, mulheres e homens na cozinha, de jovens a adultos. E para eles, é óbvio que era assim. Inevitavelmente me lembrei dos típicos almoços goianos e tentei buscar na minha memória alguma vez em que vi cena parecida. Pois é, não encontrei no meu arquivo.
Por outro lado, me lembrei das noites em Marraquexe em que eu cozinhava o jantar no hostel. A divisão era: eu no fogão e Daniel, João e Bia se revezavam para lavar a louça. Hansa, a marroquina que limpava o hostel e cuidava da cozinha, sempre estava ali: observando meu manuseio com as panelas, ajudando e tudo mais. Bastou João começar a lavar a louça que ela mandou-lhe subir para o quarto que ela lavaria aqueles pratos. No dia que Daniel colocou a mão na massa ela ria debochado e chamou o dono do hostel para ver. Ele se acabou de rir também e completou: “aqui é inadmissível um homem entrar na cozinha”.
E aí que o que vivemos não é algo como Marraquexe, mas infelizmente, nem como Alemanha. Claro, obrigada século XXI por nos apresentar homens que estão na cozinha ou no tanque de segunda a segunda e nem se atrevem a dizer que isso é obrigação da esposa. Divide-se as atividades e pronto. Mas a coisa ainda está longe de ser maioria. Ainda mais quando nos referimos a um país que precisa (e ainda bem que existe) de uma lei para proteger essas mulheres da violência, que começa em casa. Mas, por acaso, deixo essas discussões pesadas para quem sabe falar do assunto. Por exemplo, busque aqui Lis Lemos e vai encontrar bons artigos sobre.
E volto para minha pergunta: que tipo de mulher, brasileira, somos? Os parabéns vão para quem? E eis o problema. Há um tipo de mulher que hoje é parabenizada. Provavelmente ela é mãe ou um dia será, não é aquela que optou por não ser. Essa mulher também não sai ficando com um cara por noite, ela “valoriza” seu corpo, que é da sua conta e de toda a sociedade que a julga. Provavelmente é casada ou pretende se casar, não é a mulher que optou ser solteirona. Deve ser trabalhadora e, com certeza, não é prostituta. Ah! Claro, ela é heterossexual. Aliás, se não for, nem sabemos se ela é, de fato, uma mulher, não é mesmo?
Isso me faz pensar na crítica que Nietzsche faz à moral cristã, que ele se refere como sacerdotal. Há uma transvaloração conforme o cristianismo ganha terreno e o que era antes bom passa a ser mau. O que antes, na Grécia, era caro à moral aristocrática, ou seja, o nobre, o belo, feliz, poderoso é negado e o oposto passa a ser valorizado: os pobres, impotentes, sofredores, doentes. O maior problema nisso, não é um ou outro estar certo, é antes haver uma única moral, uma única verdade. Ou seja, um único tipo: de ser humano e então, de mulher também.
Acontece que todas somos mulheres, igualmente diferentes, diferentemente reconhecidas pela sociedade. A dona-de-casa que cozinha todos os dias, lava roupas de cinco, seis pessoas, inclusive as cuecas do marido e mantém a casa sempre limpa. Vai ao supermercado, feira e todo dia de manhã faz café e compra pão. E quando perguntam se ela trabalha, respondem: não, é dona de casa.
Inclusive a prostituta goiana que encontrei uma vez altas horas da madrugada num boteco-fim-de-noite em Bragança, combinando seu preço com um trasmontano. Ou a menina que era minha manicure e fiquei sabendo, assim que retornei, que foi se prostituir em Lisboa. E, não vou ser hipócrita, nas duas situações engasguei. Na primeira, fiquei com medo que também achassem que eu era prostitua. Na segunda, não entendi como “uma moça bonita e inteligente” foi fazer isso.
Mas, novamente, nas duas situações me peguei me dando bronca: quando o corpo delas será problema delas e vou deixar de julgar o que estão fazendo? Quando essa profissão milenar será reconhecida, de fato, como profissão do sexo? Claro, não estou me referindo a menores de idade, sem rumo nem esperança nenhuma na vida que vêem no seu corpo a única saída para sobrevivência. Estou falando de quem decidiu ter esse trabalho. Os parabéns hoje, não vão para elas?
E aquelas mulheres que, simplesmente, não se vêem atraídas por alguém do sexo oposto, se dão conta de sua homossexualidade, se apaixonam por outra mulher e decidem ter um relacionamento. Os parabéns hoje vão para elas? E para as mulheres que, simplesmente, não sentem vontade em ter filhos? Que acreditam que não tem vocação ou não conseguem ver crianças em seus projetos de vida. E as mulheres que decidiram dividir sua vida com um gato em um apartamento e, como diz uma conhecida, a cueca é só no sofá, nunca na gaveta? Os parabéns vão para elas?
Isso, de ser o que não se espera, de ser mulher enfrentando um tipo ideal, me faz lembrar a bruta flor de Caetano, na música "O Quereres". É mesmo como onde queres descanso, sou desejo, onde queres família, sou maluco, onde buscas o anjo, sou mulher e onde queres prazer, sou o que dói. Caetano, sim, sabia dessa vastidão da alma feminina.
Hoje queria dar parabéns para todas elas. Para as que colocaram filhos no mundo – precocemente ou não – e para as que não quiseram tê-los. Para as que estão atuantes no mercado de trabalho e cada vez mais contribuem e são reconhecidas e para aquelas que estão dentro de casa cuidando da vida doméstica. Para as que decidiram ter companheiros para uma vida toda, ou companheiras. E também para quem decidiu não se casar. Para as que estão dedicadas à vida política e para as que sofrem violência doméstica, mas não conseguem se defender. E vai também para as que sabem que o caminho pela igualdade e respeito ainda é longo e não deixaram de lutar. Que sejamos todas respeitadas, em nossa diversidade e pluralidade.