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Um dia bom

19.01.2018 - 11:22:16
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Goiânia – “Que dia é hoje?” – perguntou Eliane para sua nora. “Dia 17”. Eliane deu um sorriso. O sorriso de Eliane sempre foi muito bonito. “Dia 17”, repetiu ela e prosseguiu: “Um dia bom para morrer”.
 
Eliane lutava contra um câncer há algum tempo. O marido se foi assim. Vencido pela doença. Ela sabia que os dias por aqui estavam terminando. Mas continuou brindando a vida. Pediu ao filho uma viagem de navio. Lá foram eles e a cadeira de rodas, e as dores e o sorriso de Eliane. Pediu para sair do hospital para comprar um presente especial para a única neta. Sabia que não a veria crescer. E comprou uma jóia, um colar com um coração.
 
Eliane, no hospital, pediu à nora que ligasse para algumas amigas. Com as poucas forças que restavam, agradeceu uma a uma. E se despediu.
Esperou os filhos chegarem. E, também, o único irmão. E sorrindo agradeceu. Depois adormeceu.
 
O dia estava realmente lindo. O sol aquecia a terra sem preguiça. A família, naquela cama de hospital, e a despedida. Os dois filhos de mãos dadas com a mãe. Cada um viajava pelo passado. Conversaram um pouco. Ela ainda respondia. Falaram de comida, de viagem. Brincaram lembrando estripulias de um e do outro. Ela os olhava com orgulho. Mãe é mãe.
 
O sorriso de Eliane continuará a existir na memória deles. Mas existirá muito mais lindamente no que não conseguimos compreender. O Colo do Pai é infinito. E amoroso.
 
Depois do hospital, a nora foi explicar à filha pequena que a vovó havia partido para ficar no Céu junto com o vovô. Foi dizendo com os cuidados necessários. Com a ajuda dos filhos de Eliane. A menina, Mariana, com a sabedoria dos seus 4 anos, não demorou a responder. “Entendi. Agora ela foi viver mais perto de Deus”. Disse e saiu correndo para o quarto. Pensaram que ela fosse chorar. Não. Foi pegar o colar, presente da avó, o que tem o coração. Aquele que ela foi comprar, usando uma peruca e sentada em uma cadeira de rodas, enganando a dor com seu sorriso.
 
A criança, Mariana, talvez compreenda o que muitos adultos esquecem. Sobre  o colo de Deus. Sobre a vida que não se encerra por aqui. Sobre o sorriso que fica ainda mais lindo quando compreende, enfim, que a vida é mais forte do que a morte.
 

*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.

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por Gabriel Chalita

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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