A Redação
Goiânia – Se a necessidade faz o sapo pular, a crise econômica enfrentada pelo Brasil tem feito muitos brasileiros “pularem" e começar a pensar seriamente em empreender com um negócio próprio. Para analisar o mercado atual, as condições favoráveis e sintomas de cautela quando o assunto é empreender, a fundadora da Sempreende, Luciana Padovez deu a seguinte entrevista:
Vemos um cenário atual em que o desemprego atinge 12% da população brasileira e o país ainda respira para sair da crise econômica. Este é um bom cenário para empreender?
Existem dois tipos de empreendedorismo: o empreendedorismo por oportunidade e o empreendedorismo por necessidade. Quando falamos do empreendedorismo por oportunidade, falamos de pessoas que perceberam uma oportunidade de mercado e resolveram empreender. Ou seja, são pessoas que perceberam que alguma necessidade ou desejo do consumidor daquele mercado não estava sendo atendida satisfatoriamente ou identificaram alguma nova tendência, e resolveram que podiam melhorar ou superar negócios existentes. O empreendedorismo por necessidade é aquele no qual o indivíduo acaba começando o seu próprio negócio por não ter outras alternativas para se sustentar e sustentar sua família. Acaba usando o conhecimento ou habilidade que tem para abrir sua empresa, pois está desempregado.
Em momentos de crise como o que o Brasil vem passando, é comum que o empreendedorismo por necessidade aumente bastante. Isso, por si só, não é problema, mas normalmente esses empreendedores planejam menos ou têm menos recursos para sustentar as fases iniciais do negócio, o que pode leva-lo ao fracasso. Por isso, esses empreendedores devem ter cuidado redobrado.
Segundo pesquisa do Sebrae realizada em 2016, a taxa de mortalidade das empresas de dois anos constituídas em 2012 em Goiás foi de 24%. Quais os erros mais comuns entre aqueles que começam um negócio? O que devem fazer para que seu empreendimento tenha sucesso?
Uma das principais razões para o fracasso dos empreendimentos nos seus primeiros anos é a falta de conhecimento do que o mercado quer. É muito comum que o empreendedor tenha uma ideia de negócio, se apaixone por ela e se recuse a pesquisar ou avaliar se ela é realmente interessante, ou seja, se as pessoas realmente vão comprar aquilo que ele se propõe a vender. Alguns empreendedores até fazem pesquisa, mas só procuram opiniões que confirmem a sua. Se ninguém vê valor no seu produto, nem as melhores ações de marketing ou um atendimento sensacional irão convencer um número suficiente de consumidores a comprar de você. Por isso, os negócios acabam fracassando, mesmo se o empreendedor tiver muito dinheiro para financiá-lo.
Outra razão importante é a falta de conhecimento sobre gestão financeira. Isso normalmente está aliado à falta de planejamento. A verdade é que nós somos apressados e não gostamos de planejar. Aí, subestimamos o capital de giro necessário para o negócio funcionar, não calculamos o ponto de equilíbrio (que é o quanto você precisa faturar para ficar no zero a zero, ou seja, somente pagar suas contas) e o negócio opera alguns meses no vermelho e acaba morrendo, pois não tem como se sustentar até que as vendas comecem a aumentar. Nenhum negócio começa vendendo o desejado. É necessário um período de amadurecimento. Para piorar a situação, o empreendedor não tem uma reserva para se sustentar nesse período e acaba fazendo retiradas da empresa quando ela não está gerando lucros, acelerando sua morte.
Uma das razões apontadas pelo estudo do Sebrae, que justifica essa taxa, é a falta de capacitação específica. Que tipo de conhecimento o empreendedor deve ter?
O empreendedor deveria se preparar para conhecer um pouco de tudo, de todas as áreas da empresa. Ele não precisa ser um especialista em planejamento ou conhecer em detalhes todas as opções possíveis de investimento, mas é preciso ter uma base. É fundamental entender sobre o mercado, sobre seus clientes. Para isso, deve ter conhecimentos de pesquisa de mercado, de comportamento do consumidor, das estratégias de marketing que ele pode utilizar. Deve ser capaz de definir sua proposta de valor e como ela será ofertada aos clientes.
Sobre gestão financeira, o empreendedor deve conhecer seus conceitos e ferramentas básicas, para que consiga gerenciar seu fluxo de caixa, reduzir seus custos, fazer demonstrativos financeiros e o quanto pode retirar e quanto deve reinvestir. Para isso, é fundamental saber gerenciar o seu estoque e produção.
O início de ano é um bom período para quem está interessado em desenvolver seu empreendimento, começar? Quais seriam os primeiros passos?
Sem dúvidas. Apesar de não existir um período considerado ideal para começar um negócio, a energia de início de ano com certeza nos dá um ânimo a mais para começar.
A primeira coisa é entender quais são os motivos que levam a pessoa a querer empreender. Se os motivos são: ficar rico mais rápido, ter mais liberdade e tempo livre ou se sentir responsável pelo próprio sucesso, sinto muito! Nos primeiros anos do negócio, o empreendedor provavelmente não irá conseguir fazer retiradas (e precisa de uma reserva financeira para sobreviver nesse período), certamente irá trabalhar mais horas do que no seu emprego de carteira assinada e terá mais preocupações do que antes. Além disso, é impossível controlar todas as variáveis, então é preciso estar preparado psicologicamente para lidar com imprevistos. Por isso, é recomendado analisar bem os motivos para não se arrepender.
Hoje vemos muita gente falando sobre empreendedorismo e fica difícil definir o que ele é e saber em quais informações confiar. Como lidar com essa avalanche de informações?
Empreendedorismo é a identificação e avaliação de oportunidades e a decisão de agir diante dessas oportunidades para gerar inovação. Inovação pode ser fazer pequenas melhorias no que já existe ou chegar até a criação de algo totalmente novo. O empreendedor é aquele que abre um novo negócio, que melhora processos ou produtos nas empresas em que já trabalha, ou que cria projetos sociais ou organizações sem fins lucrativos. Portanto, empreender não é só vender, liderar e motivar pessoas ou fazer uma boa divulgação.
Existe um fenômeno preocupante chamado “empreendedorismo de palco”. São palestrantes ou formadores de opinião vendendo empreendedorismo como uma solução mágica que deixará a pessoa rica e feliz. Fazem discursos padronizados que parecem dizer que existe uma fórmula secreta para empreender. Obviamente, eles serão os responsáveis por desvendar esse segredo. E o pior: cobram muito caro por isso!