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Rastros de Ódio

19.03.2018 - 17:08:31
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Impossível passar incólume ante a grandiosidade e o talento singular de John Ford em contar uma história. Rastros de Ódio (1956), possivelmente sua obra-prima máxima, remonta a uma miríade de raríssimos planos muito bem arquitetados e que se entrelaçam de modo admirável, como no suntuoso plano que se inicia com a abertura de uma porta e a sequência que encerra a película com a mesma porta sendo fechada, passando por toda uma jornada que compreende um personagem em uma busca impetuosa por uma vingança após sua família ser chacinada, ao mesmo tempo em que almeja resgatar Debbie Edwards (Natalie Wood), sua sobrinha sobrevivente.

Ao longo de seu penoso e tortuoso caminho, Ethan Edwards (John Wayne) se transformará após os percalços inexoráveis impostos ao longo de sua odisseia pelo oeste. Ethan, ao retornar da guerra civil, encontra este cenário desolador e o prolongamento de sua dor se estende, rompendo o seu desejo de encontrar no esteio familiar aquilo que fora ceifado em sua passagem por uma guerra ignóbil, mas a violência parece não se distanciar de seu personagem, insistindo em tatuar em suas recordações a brutalidade inerente ao ser humano, demonstrando em sua tez uma expressão de desolamento, de um banzo preconizado por uma ausência de paz.

Jean-Claude Brisseau disse que o que mais o toca em relação ao cinema de John Ford é sua capacidade de os personagens serem confrontados com a decepção e o fracasso, serem obrigados a digerir uma humilhação – diríamos agora uma ferida narcísica – e continuarem a viver assim mesmo, sem chorar como pirralhos bem como a incrível capacidade de dar vida a uma série de personagens secundários, algo cada vez mais perdido no cinema. A decepção de Ethan o impele à vingança e é o combustível que enaltece seu desejo de prosseguir.

O trágico evento que insere Ethan e seu sobrinho mestiço no encalço dos índios que dizimaram sua família perpassa por planos suntuosos de um autêntico esteta visual que contempla uma paisagem árida e imensa embevecida pela fotografia acachapante de Winton Hoch que consegue extrair com rara sensibilidade a beleza das locações no Monument Valley imiscuindo a luz amarelada do sol com o vermelho da terra ressaltada ainda pela belíssima banda sonora de Max Steiner e Stan Jones, apinhada de canções melancólicas que refletem a condição solitária do personagem vivido por John Waye e toda sua aura misteriosa e distante que são marcas permanentes de Ethan.

A cena em que Ethan macula o túmulo de um comanche atirando nos olhos do cadáver – corroborando o racismo do personagem – para quebrar a tradição indígena que diz que um pele-vermelha sem olhos está condenado a vagar entre os ventos é emblemática e inesquecível, e espelha a situação de ambos os personagens, ou seja, se o índio está agora condenado e sem rumo, o próprio Ethan se encontra no mesmo destino. O senso de composição fílmica em cada plano ou extra-campo de Ford é nada menos do que brilhante.

A ambiguidade do personagem e a dúvida sobre sua real missão se evidenciam quando Ethan descobre que sua sobrinha pode estar contaminada pelo seu convívio com os índios gerando uma tremenda interrogação na cabeça do público. Será que ele almeja resgatá-la ou matá-la? A narrativa caminha e a incerteza se acentua à medida que a projeção se desenrola até a antológica sequência em que Ethan pega em seus braços sua sobrinha e a convida para retornar à casa, perpetuando o aforisma de Jean-Luc Godard que diz que o cinema é a expressão de bons sentimentos.

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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