Logo

Transporte, paralisação e a política

27.05.2018 - 10:25:50
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – A greve dos caminhoneiros, motivada pelo alto custo do combustível, diesel principalmente, teve um efeito paralisante para a economia nacional. Em muitas cidades a falta de combustível fez com que a frota de ônibus não funcionasse, também os automóveis ficaram nas garagens; os centros de abastecimentos e supermercados tiveram faltas de mercadorias; em alguns lugares o fornecimento de energia foi prejudicado por falta de querosene; também voos foram suspensos por não ter combustível para as aeronaves; e, por aí seguem os efeitos do movimento grevista.

O problema está em que o transporte rodoviário tornou-se o principal, e quase único, meio de transporte e de abastecimento do mercado nacional. Entre os meios de transporte de carga, o rodoviário é considerado o que tem o maior custo operacional. A hidrovia apresenta-se como o de menor custo por tonelada, seguida pelo sistema ferroviário no preço da tonelada transportada. Segundo estudos, a hidrovia teria o custo de 1 vez, a ferrovia custaria 3 vezes mais e o rodoviário 9 vezes mais.

Brasil, país continental, até nos anos 1950 tinha o trem de ferro como principal meio de transporte de carga, também de passageiros, embora em algumas regiões, norte principalmente, o predomínio fosse o transporte por barcos. As hidrovias ainda continuam sendo muito importantes nas diferentes formas de transporte em toda região amazônica. A integração nacional, contudo, foi feita e idealizada por Juscelino Kubistchek pelo automóvel/caminhão. O Plano Rodoviário Nacional tornou-se prioridade, as BRs passaram a ser a ligação entre regiões, norte a sul, leste a oeste. E, na medida em que esse modal rodoviário avançava, o transporte ferroviário encolhia.  

Simultaneamente, entram em ação indústria automobilística, liquidando todo o projeto nacional de produção de automóvel, a Fábrica Nacional de Motores, FNM/FêNêMê, faliu, fechou; vieram e tomaram conta do mercado as marcas internacionais com o sempre pronto apoio financeiro do Estado brasileiro. Vejam o resultado – o aleijão das cidades pelo volume de carros em circulação, sendo as prefeituras obrigadas a investir em viadutos e obras necessárias a dar vasão e espaço ao automóvel; também a quase falência do transporte público, por falta de recursos e vontade/visão política.

Neste sentido é que se apresentam os efeitos políticos e não somente econômicos do movimento grevista do caminhoneiro. No primeiro momento, Brasília se movimentou para achar meios de reduzir o preço do diesel, com redução de impostos e prejuízos para a Petrobras. Assim, o movimento grevista fez o impopular governo e o Congresso Nacional desacreditado procurar meios de solução da crise, mesmo com muita perda das contas públicas. Contudo, pouco adiantou, daí o apelo para a justiça e para a força nacional a fim de desobstruir as estradas. O desencanto com a política e com os políticos, a irritação com a corrupção, a perplexidade com as mordomias de uma classe dirigente que se mantem pendurada no Estado e se beneficiando de recursos públicos. O movimento dos caminhoneiros mexeu com a política, mas muito mais do que isso tem sido a repercussão popular, seja no apoio, seja na percepção da ‘plebe ignara’ de que é possível mudar e exigir mudanças não pelo voto, mas por outros meios menos ortodoxos. 

Itami Campos é cientista político, membro da AGL e do IHGG.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Itami Campos
Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]