Não sei quantas vezes vocês já ouviram por aí “Goiânia é pequena para mim”. Ou quantas vezes você mesmo já disse isso. Eu mesma já o fiz e sei como se deu isso. Eu me lembro, bem criança, num almoço de domingo, sentada no mesmo lugar à mesa que me sento hoje em que posso bem ver o céu por entre os coqueiros do quintal. Na época era um pé de goiaba. E eu via um avião passando. Eu pensei que queria viajar muito. Que queria conhecer muitas coisas. Era um pensamento de criança. Essas coisas foram evoluindo para lugares, culturas, pessoas, vidas, histórias.
E aí que essa vontade nunca saiu de mim. Assim como fui crescendo, vivendo a música e as experiências profissionais que ela me trouxe com o tempo. Aos 11 anos vestia uma camisola para apresentar o solo infantil no Musical das Águas do coro adulto da PUC-Goiás, Vozes e Cores. Eu representava uma criança num sonho e cantava “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes.
Participei desse musical até os 16 e segui com participação em sexteto, gravação de CD, de curta-metragem. Idade delicada, em que tudo parece acontecer e o mundo dar as caras. Os estudos iam bem e com eles a vontade de estudar fora, a música se tornando coisa séria e a vontade de conhecer muita coisa continuava. Minha camisola foi ficando pequena. E eu achava que meus sonhos para Goiânia também. É nessa hora que a gente solta a ingrata frase: “Goiânia é pequena para mim”.
No ano seguinte fui para a Nova Zelândia. Mas faculdades fiz aqui. Saí ano passado para outro intercâmbio. Voltei. Quero sair de novo. Mas hoje avalio com muita ingratidão e injustiça soltar essa frase, seguida de críticas, “Goiânia é pequena para mim”. Recomendo, aconselho (a quem tem oportunidade) uma, duas, mil vezes a experencia de viver fora de Goiânia. Profissionalmente. Pessoalmente. Para aprender mais. Para viver mais. Se todo ponto de vista é visto de um ponto, que se conheçam muitos pontos. Goiânia é um delicioso ninho, quentinho e confortável. E até passar perrengues fora daqui te faz melhor.
Mas o que anda me incomodando ouvir é que essa vontade seja porque Goiânia é pequena para você. E seguem inúmeros discursos descendo o cacete na cidade, no povo daqui. Grande é São Paulo, Rio de Janeiro, Londres ou Nova Iorque, nesse caso. Sinceramente? Alguém que passa sua vida toda em uma dessas cidades, para mim, não é maior que alguém que vive a vida toda em Goiânia. A grandeza está em reconhecer outras cidades, outras vidas, outras possibilidades. Ou em fazer alguma coisa pelo lugar que você escolheu em chamar de seu.
Mas vou explicar por que vos falo hoje disso. Quinta-feira saí correndo da aula que terminou mais cedo, às 21h45, para ir ao show de Marcel Powell (filho de Baden) no Teatro Sesi, caminho de volta para casa do Câmpus. Cheguei uma hora atrasada, consegui assistir a 40 minutos de show. Suficiente para me arrancar lágrimas e me fazer dormir mais feliz. O teatro estava com muitas cadeiras vazias. E, cá entre nós, nem paguei para entrar (pagaria R$ 10). Deixaram-me entrar sem pagar dado meu atraso.
Sempre que assisto a alguma coisa muito boa culturalmente em Goiânia, saio incomodada com as cadeiras vazias. Não tanto pelas cadeiras vazias, porque sei como não é fácil divulgar esses eventos entre uma população sem certos hábitos. Mas pensando naqueles que dizem “Goiânia é pequena para mim, porque eu adoro teatro e música e Goiânia não tem cultura. Não oferece nada”. E, geralmente, esse reclamão é aquele que deixa R$ 100 na balada. Mas acha caro pagar R$ 20 para ver Marcel Powell. E então você que é grande demais para essa cidade? Cadê sua grandeza, amigo? Qual seu tamanho?
A indignação segue quando penso naqueles que, para mim, são grandes e estão em Goiânia. Quem fica por aqui são aqueles pequenos? São os losers? É um leque muito grande de motivos que faz as pessoas ficarem por aqui. De fato, alguns não têm a mínima vontade em tentar conhecer outra coisa. Outras têm medo de sair desse ninho quentinho para se lançarem às dificuldades. Já uns ficam pela qualidade de vida e custo de vida (ainda) baixo perante outras capitais. Outros motivos são uma namorada, família, amigos. E ainda aqueles que, admiro muito, podem estar em qualquer outro lugar e ficam aqui para fazer Goiânia crescer.
Nesse grupo, pensando rápido, me vêm algumas pessoas em mente. Rodrigo Kaverna, meu amigo e colega de música, que tem talento de sobra para estar onde quiser. E está aqui, dando oficinas de coco e maracatu na garagem de casa todo fim de semana para gente de toda idade e tipo. Por quê? Acredita que pode compartilhar seu conhecimento e fazer a cidade crescer culturalmente.
Fabrício Nobre e Décio Coutinho são outros em que penso. Reconhecidos nacionalmente pela competência e talentos, poderiam estar trabalhando em qualquer canto do Brasil (mundo, até). E estão por aqui ralando para fazer desse canto nosso mais rico culturalmente. E há tantas outras pessoas, penso na Flávia Cruvinel, que toca o Música no Câmpus, no Maneco Maracá, do Circo Lahetô, Danilo Alencar, do Arte e Fatos, nos artistas da Quasar e por aí segue.
Para além da cultura, penso nos meus professores de filosofia. Vez em quando penso no privilégio que tenho deles estarem aqui, enquanto poderiam estar em qualquer canto do Brasil ensinando tanta coisa importante. Penso então nos arquitetos, jornalistas, engenheiros, médicos, empresários e tantos outros profissionais que ajudam essa capital a crescer. Naqueles que se organizam num sábado de manhã para ir às ruas e não tolerar os abusos políticos pelos quais passamos. Eles são pequenos para Goiânia? Se são grandes, que saiam daqui?
Que pensemos então em nossa grandeza. Em que consiste? Qual seu tamanho? O que você quer ser? Sair de Goiânia: legítimo, necessário, importante. Para quem quer, precisa, se arrisca, tem vontade, coragem. Mas não diga que é porque a cidade que te gerou é pequena para você. Pense nos grandes que ficaram para que essa sua cidade um dia seja “grande o suficiente” para outras gerações. Pense que é você quem dita seu caminho. Pense que você pode ser pequeno e ordinário até na Big Apple. Pense que um londrino pode sentir a capital da rainha pequena para si. Ele pode se realizar em uma cidade do interior do Nordeste brasileiro. Não é o tamanho da cidade. É o tamanho do sonho.