Logo

Parabéns para você! Hoje é dia do índio

19.04.2012 - 08:28:08
WhatsAppFacebookLinkedInX

Hoje é mais um dia dos outros. Dia da criança passa pela gente, hoje não nos pertence mais. Dia dos namorados, para quem tem. Dia da mulher, pertence somente a algumas, aquelas que citei aqui outro dia. Daqui uns dias é dia da abolição da escravatura, aquela coisa que não tem muito a ver com a minha realidade. E hoje é o dia do índio. Aquela figura que ficou lá no passado, até (graças a Deus) passarmos de seres selvagens a civilizados. E por isso hoje é um dia que penso: que porcaria de mistura somos nós que dia dos índios não tem nada a ver comigo? 
 
Essa semana li um texto no A Redação sobre a Bienal do Livro e Leitura em Brasília que me deixou bem encucada. A romancista moçambicana Paulina Chiziane, ao se referir aos efeitos da presença das novelas, igrejas e templos brasileiros em seu país disse: “Temos medo do Brasil”. Ela se referia à imagem que o Brasil tem vendido, pelas novelas (meio pelo qual fazem a imagem do país), de que no topo da representação social estão os brancos. Os negros são sempre os mandados e parece que somos, no máximo, mestiços, diminuindo a presença dos negros no Brasil. Além disso, as igrejas chegam à terra africana impondo certa forma de crença e negando as que já existem por lá. Há muitos anos, diga-se de passagem.
 
Disso decorre que os moçambicanos têm aceitado isso como natural: os negros sempre subalternos aos brancos. Assim como a imposição de uma forma de crença. E, digo mais, estive em 2010 na África do Sul na ocasião do Festival Mundial de Juventude e conheci jovens de liderança política no Moçambique. Eles admiram imensamente o Brasil. Pensam assim: “se eles chegaram lá (se referindo ao nosso crescimento socioeconômico), também podemos chegar”. Muito me envergonha vendermos essa imagem citada por Paulina. E, pior, não tiro a razão da romancista em ter medo do Brasil. Acho que eu também tenho.
 
Goela abaixo vamos engolindo os dois pilares dos três que formam o nosso sangue e história. O europeu, onipotente e onipresente, nunca precisou fazer força para ter espaço na sociedade brasileira. Forte por si, atravessou os séculos de nossa história com toda imponência. Levante a mão quem não prefere destacar seu sobrenome europeu ao seu Pereira ou Silva. Já os negros são aqueles que a custa de sangue e suor batalham cotas em universidade. Em emprego, em campanhas de publicidade. Seguem brigando para tocar os tambores e cultuar orixás. Pelo menos permitir uma homenagem da prefeitura com esculturas desses orixás num parque (se estão lembrados). Os índios são os outros que lutam para que sejam o que sempre foram: donos de suas terras. E é sobre isso (enfim) que quero falar.
 
Saio arrepiada e com emoção à flor da pele da sala de cinema. Em cartaz, “Xingu”, dirigido por Cao Hamburger e muito bem atuado por João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat. Chorei por ver um lindo fragmento da história brasileira. Por saber que temos heróis, ainda que eu não os conhecesse. Por ter visto algum final feliz nessa trajetória de vida desse país, enquanto passei o filme toda tensa achando que não teria. Chorei por ter sido privada da história da minha própria nação. E por vergonha desse povo que é meu e é como se não fosse: os índios.
 
Quantas vezes você já ouviu falar que o Brasil não tem herói? Que enquanto África do Sul tem Mandela e Índia tem Gandhi, nós temos Ayrton Senna e Pelé. Porque, infelizmente, nossa história é muito mal contada. A gente não conhece nossos heróis. Não que eles não existam. Principalmente porque um herói nunca pretende sê-lo. Ele se torna. E ele não deseja com toda a garra e ambição conquistar esse posto. Ao contrário, dá espaço para o protagonismo mudar de personagem.
 
Acho que por isso, uma simples linha no fim do filme constando, mais ou menos assim, que “Em 1984 (ou por aí) os irmãos Villas Boas passaram a liderança do parque para os próprios indígenas”. Souberam reconhecer sua missão e deixá-la quando cumprida. Ainda que a vida deles tenha se tornado tudo aquilo. Ainda que tenham se privado de muita coisa. Uma vida doada a uma causa maior. Coisa de herói.
 
E se eu não tivesse assistido a esse filme, talvez nunca soubesse como nossos índios não acabaram de ser exterminados do mapa. Que vergonha em não conhecer minha história. Assim como pouco sei da formação dos quilombolas em Goiás. É uma história que se escreve por mãos brancas. Os protagonistas vêm da Europa, os demais, coadjuvantes. E nós seguimos alheios à nossa própria história. Valorizando nossos sobrenomes europeus e achando que índio e negro são os outros. Não somos nós. Assim como os gays, judeus e qualquer tipo que fuja de um tipo ideal de brasileiro. Disso, seguem tantos problemas dentro do ônibus, passando pelas calçadas, bancos da faculdade até aos postos de trabalho e brigas no parlamento.
 
Não somos um. E nem nunca vamos ser iguais. Cláudio Villas Boas, por mais que passasse e dedicasse sua vida toda em meio aos índios, jamais seria um deles. E nem deveria ser para que se dedicasse à causa deles. Porque a verdade é que a causa era dele também. É uma luta pelo reconhecimento do valor de cada um que tem força em nossa formação. De cada ser que é brasileiro, simplesmente, e faz parte dessa sociedade. Pelo esforço em sermos reconhecidos igualmente diante das diferenças. Ações afirmativas tratando os diferentes de formas diferentes, como necessário. Para que um dia isso não mais seja preciso. Nesse dia do índio te faço um convite: corra à sala de cinema mais próxima e assista “Xingu”. Conheça uma parte de sua história que foi privada. Esse dia de hoje também é seu.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]