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L7: garotas cinquentonas chutam bundas em solo brasileiro

08.12.2018 - 17:27:33
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L7 (Foto: Márcia Deretti)

Goiânia – Confesso sentir o peso dos anos. Quando moleque, viajar para shows de minhas bandas favoritas estava no topo das prioridades pessoais. Com o passar do tempo, a coisa arrefeceu. Filas quilométricas, horas em pé e empurra-empurra tornaram-se um desestímulo considerável. Ficar velho é isso aí.  

2018 foi um ano sui generis para shows em terra brasilis. Foram muitos, de todos os tamanhos, para todos os gostos. Houve a mastodôntica e histórica turnê de Roger Waters, e o rolê indie dos Thee Oh-Sees. A aguardada apoteose de Nick Cave e a devassidão sônica do Killing Joke. E muito, muito mais.  

Não vi praticamente nada. Bateu uma certa deprê. Estaria eu com o pé na cova? Um anúncio me arrancou da inércia de tiozão. 25 anos após roubarem a cena de um Hollywood Rock que tinha um line-up com Nirvana, Alice in Chains e Red Hot Chili Peppers – todos no auge! –, as garotas do L7 retornariam ao Brasil para uma tour passando por Rio, SP, Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte. Comprei meus tickets para a terra do pão de queijo e passei a contar os dias. Excitado.  

Ao imprimir os ingressos, uma surpresa contraditória: a banda de abertura seria o nosso Carne Doce, ponta de lança da cena musical jovem de Goiás. Por um lado, fiquei feliz pacas. Dediquei a maior parte da minha vida ao rock goiano, através da Monstro Discos, Goiânia Noise Festival e Bananada. Ver bandas locais atingirem um público mais amplo sempre me encheu de orgulho. Na contramão disso, havia a clareza que a sonoridade neo-mpbística do Carne Doce não se encaixava muito ao punk rock casca-grossa das L7. Dito e feito.  

O show começou climático. Banda no palco mandando os primeiros acordes em meio às nuvens de fumaça. Entra em cena a vocalista Salma Jô, envolta numa espécie de sobretudo preto. Cool. E então, ela se despe do sobretudo para revelar um figurino trançado em fios brancos, como uma meia arrastão agarrada ao corpo. Com a calculada projeção de luz negra, o visual ganhava uma pegada realmente sexy. Salma é gata e assumir uma postura erótica é um desafio que pode render resultados muito interessantes. Madonna e Wendy O. Williams não me deixam mentir.  

O Carne Doce está afiado e com um show profissa. Tem lenha pra queimar e pode ir ainda mais longe do que já foi. Apesar disso, a sintonia com a plateia presente não se estabeleceu – com exceção dos próprios fãs da banda. Vão se dar melhor no Lollapalooza. Quem sabe abrindo a volta do Los Hermanos? Em sua esmagadora maioria, quem estava no Mister Rock BH queria rock. E rock, naquela noite, tinha um só nome: L7.  

O universo roqueiro é multifacetado. Uma constante, porém, é parecer um clubinho masculino – que usualmente também é machista. São poucas as bandas com mulheres. Bandas só com mulheres, menos ainda. E bandas só com mulheres, capazes de detonar a maioria das bandas masculinas… Bem, nesse caso, ficamos praticamente reduzidos à gangue de Donita Sparks (guitarra e voz), Suzy Gardner (guitarra e voz), Demetria Plakas (bateria) e Jennifer Finch (baixo).  

Eu estava apreensivo. Um quarto de século após a antológica performance no Hollywood Rock, não estamos mais falando de uma banda de garotas, mas de respeitáveis (?) cinquentonas. Bobagem da minha parte – afinal, o velho aqui sou eu. O L7 quebrou tudo, numa irrepreensível aula acerca dessa arte perdida chamada rock’n’roll.  

Como sempre, Dee Plakas massacrou seu kit de bateria. Jennifer Finch, cabelos ruivos ao vento, esbanjou carisma e pressão nas linhas de baixo. Suzy Gardner moeu maravilhosos riffs e solos podreira. E Donita Sparks… Bem, sou suspeito pra dizer. Há décadas sou apaixonado por ela, seu inconfundível timbre vocal dotado de um escrachado trêmulo natural, sua postura simultaneamente agressiva e galhofeira, seu humor sacana. De longe, a mulher mais sexy a pisar naquele palco.  

O L7 faz rock nascido com o único pedigree que interessa: a rua. Nenhuma delas preocupada com excesso de rugas ou celulites, mas com a verdade de sua música e total conexão com o público. Foi uma avalanche sonora. Hit em cima de hit. Energia transbordante que transformou minha usual sisudez em sorriso de orelha a orelha – os dentes encavalados expostos para quem quisesse ver.  Terminei o show com a alma lavada. Melhor impossível. Agora é juntar dinheiro pra fisioterapia. O sorriso, contudo, segue grudado na cara.  

P.S.: Gostaria de convidar todos os leitores do Guerrilha Pop para a 10ª CRASH – Mostra Internacional de Cinema Fantástico que acontece de 12 a 16 de dezembro no Cine Cultura. A programação está incrível e a entrada é gratuita. Mais informações pelo site aqui

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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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