Estou curtindo uma merecida semaninha de férias. Como estratégia de felicidade, tento manter o celular fora de alcance. Nem sempre consigo. Hoje, pela manhã, não resisti e dei uma conferida no faketruque. Fui pego pela triste notícia de que um velho camarada, o professor e vocalista heavy metal Flávio Mendez, havia falecido.
Um infarto fulminante levou o (literalmente) grande Flavão. Com apenas 47 anos de idade, deixou dois filhos. Faço 47 em setembro. Tenho dois filhos. Sua morte inesperada me encheu de questionamentos. O primeiro e mais imediato deles diz respeito à nossa finitude.
A idade avança, o corpo acusa, mas a cabeça não processa. Sou quase um cinquentão. Na mente, entretanto, permaneço adolescente. Daqueles meio bocós. Pertenço a uma geração que não tem na saúde uma de suas grandes preocupações. Era quase um atestado de frescura e frouxidão esboçar algum cuidado com alimentação, fazer exercícios regularmente, evitar os excessos. A coisa vem (ou vinha) mudando. Mas ainda falta muito. Foi o que o Flavão me esfregou na cara logo cedo – enquanto eu fragorosamente perdia a batalha contra a ressaca do dia anterior.
Nunca fui íntimo do Flávio Mendez. Nos conhecemos nos anos 1990, na cena rock goiana. Fazíamos parte de um mesmo universo, mas em extremos opostos. Flávio era metaleiro convicto. Já eu, um “alternativo” metido à besta. Não sei se mudei muito desde então.
Quando criei – ao lado do lendário Leo Bigode – o Goiânia Noise Festival e a Monstro Discos, seguíamos um ideário pós-Nirvana. Abominávamos tudo que fosse grande: gravadoras, shows, festivais e, até mesmo, bandas. Aquilo nos recendia a puro comercialismo marqueteiro. Neste panorama, o heavy metal (principalmente o chamado metal melódico) ocupava o topo do ranking de nosso desprezo – comparável apenas à música sertaneja e ao gospel. Cheguei a comparar os três estilos em rede nacional de TV, no saudoso programa Musikaos, pilotado pelo gente-fina Gastão Moreira. Uma frase de efeito que me custou muitos desafetos.
Flavão era vocalista do Velvet Vex, uma banda de – adivinhem – metal melódico. Terminou seus dias no Heaven’s Guardian, maior nome que o gênero já pariu em terras goianas. Era um baita cantor, tecnicamente muito superior a mim. Mas como suas bandas eram sempre desse fatídico estilo, demorou muito tempo até que a Monstro finalmente as colocassem nos palcos de seus concorridos eventos. E relembrar isso também me trouxe um mar de pensamentos contraditórios.
Ali, na virada dos anos 90/2000, acreditávamos que o rock estava sempre em busca do novo. Continuo, de certa forma, acreditando nisso. Mas as perspectivas são outras. Naqueles tempos, considerava bandas como Iron Maiden verdadeiros dinossauros que haviam se tornado um pastiche, uma cópia patética de si mesmas. Isso também valia para estrelas de calibre ainda mais elevado, como os imorríveis Rolling Stones. De forma bastante ingênua, pensava que quem estava com tudo eram as bandas que apareciam no Lado B da MTV. Na minha cabeça de então, Teenage Fanclub, Yo La Tengo e Money Mark eram mais relevantes que os tais dinossauros. O tempo mostrou que as coisas não são bem assim. Em pleno 2019, são os dinos que – mais que quaisquer outros – mantêm acesa a tal chama do rock’n’roll. Para o bem e para o mal.
É óbvio que essa hierarquia entre o que seria e o que não seria de fato relevante não nasceu apenas entre as bandas da cena rock. A crítica especializada cumpriu papel fundamental, através dos jornais e revistas da época. Foi lá que aprendemos, por exemplo, que solos dedilhados são chatos e que batera com dois bumbos é brega. Ou que o Big Star era “melhor” que o Black Sabbath. Pode uma bobagem dessas?
Apesar das minhas simplificações, a coisa é claramente mais complexa. A crítica exercia um importante papel em nossa formação – e agora vivemos um momento onde a crítica, e por tabela o pensamento, praticamente inexistem. A questão é que eram assertivos demais. Opiniões se convertiam em leis – cumpridas com diligência pelos fiéis. Então, se Folha, Estadão ou Bizz afirmavam que metal melódico era tolice, muita gente entrava na onda. Sem sequer ter ouvido.
A partida do Flavão me fez pensar nisso também. Minha relação atual com a crítica é bem distinta. Não me interessam suas “verdades” – que mais que nunca sei jamais serem absolutas. O que vale, para mim, são as visões e pensamentos jogados sobre as obras e seus criadores, tornando-os mais ricos e multifacetados, eternamente prenhes de novos significados.
O metal melódico segue sem grandes atrativos para mim. Por outro lado, é impossível desprezar a relação que o estilo estabelece com seu público. Colocar isso numa balança de melhor x pior é de uma bovinice ímpar, da qual não quero tomar parte. Descanse em paz, Flavão. Muito obrigado pelos papos e risadas. E principalmente por todos estes questionamentos que hoje você despertou em mim.