Logo

As histórias que contamos

16.01.2019 - 08:47:25
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Ao longo dos séculos, doenças mentais estiveram associadas a uma série de coisas. Foram espíritos que invadiam nossos corpos, deuses que nos torturavam, encantamentos que nos controlavam. Foram corpos cujos líquidos estavam desequilibrados, alimentos exagerados ou ausentes, sangue contaminado por algo.  

Todo tipo de explicações e todos os tipos de tratamentos. O enciclopedista médico Cornelius Celsus, de Roma, chegou a descrever práticas de cura das doenças mentais: dieta, sangria, drogas, terapias falantes, incubação em templos, exorcismo, encatamentos e amuletos, por um lado, e, por outro, ações ao nível de torturas (como inanição, sustos repentinos, agitação, apedrejamento e espancamento).  

Ao longo das eras percebemos que os problemas não são meramente físicos ou do campo espiritual: o psiquismo é, na verdade, o elo entre espírito incondicionado e o corpo condicionado. E, portanto, é necessário que, perante doenças mentais, foquemos no tratamento integral da pessoa e não de uma das partes. Um ser “mentalmente saudável” é um ser cujas dimensões física, mental e espiritual encontram-se em diálogo e harmonia, ainda que nas situações mais difíceis.  

Para isso, precisamos que os psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas estejam disponíveis em postura, linguagem e respeito. A ponte entre paciente e psicólogo só é possível num espaço de confiança, num acordo que vise interesse conjunto nos pensamentos, sentimentos, desejos e comportamentos do paciente. O que transforma o paciente é olhar que o vê completo e não dividido, é o olhar que enxerga no paciente a doença mas não um doente, que vê a possibilidade de cura no próprio paciente. O que cura é a relação que esse olhar cria.  

Estima-se que existam no Brasil 23 milhões de pessoas que vivenciam algum tipo de transtorno psíquico. Algumas figuras públicas, ao longo dos anos, têm falado abertamente de suas histórias de sofrimento e vitória. Fernanda Lima conta que desenvolveu depressão após as críticas à sua primeira novela, “Bang Bang”. Roberto Carlos já expôs a importância de fazer terapia sistemática. Cássia Kiss expõe abertamente sobre sua bulimia e bipolaridade.  

É importante que sejamos capazes de contarmos nossas histórias perante as doenças mentais. Porque ao contá-las, podemos assumir a verdade sobre nós e nos tornamos protagonistas dessas histórias.

Porque como protagonistas vemos nossos medos mas também nossas potencialidades.  

Quando contamos a história, ajudamos aqueles que nunca passaram pelos vales do desespero da doença mental a perceber um pouco mais sobre o que é vencer os desafios da doença. Quando vemos um “Para Sempre Alice” ou “Um Sonho Possível”, ou lemos um livro desenvolvemos a empatia perante as dificuldades de nossos companheiros também humanos. Percebemos que doenças mentais não são frescura ou alguma coisinha que pode ser resolvida com discursos motivacionais: percebemos realmente que as dores do outro nos convocam a melhorar nosso nível de respeito pela diversidade.  

Quando contamos a história, ajudamos aqueles que se sentem sozinhos e abandonados pela sociedade a perceber que não estão sozinhos. Seu sentimento de absurdez se pode tornar um sentimento de companheirismo, de ver que outros passaram pelo mesmo, que “essa dor não é só minha”, que nenhuma montanha é alta demais para ser escalada.  

E quando meus pacientes me contam suas histórias, percebo o meu papel enquanto psicoterapeuta: ajuda-los a compreender que a forma de contar a história muda a forma de viver a vida. É possível deixar de ser Arlequina agredida e submissa pelo namorado, Carmen mal vista pelas pessoas, ou Renato Russo compondo suas músicas em depressão. Quando meus pacientes me contam suas histórias, sessão após sessão, reconectando-se ao seu íntimo e refletindo sobre minhas perguntas, percebem que podem ser Mulher Maravilha dona de si, a princesa Aïda respeitada por todos, ou o sofredor Cazuza que canta com bom humor.  Quando contamos nossas histórias, mudamos as nossas histórias.  

[Este texto foi escrito dentro da Campanha Janeiro Branco, porque a Psicoterapia deve estar ao alcance de todos!]  

Sam Cyrous é psicólogo, psicoterapeuta de casais e família storyteller e curador do TEDxGoiânia

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Sam Cyrous
Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]