Religião, futebol e política não se discute, certo? Errado. Infelizmente, nem sempre nossas preferências pessoais e crenças são respeitadas pelo outro. No sábado tive um claro exemplo disso. Aproveitei o dia de sol para caminhar no Bosque dos Buritis, mas o que era para ser motivo de alegria foi razão de tristeza e chateação.
Enquanto tomava calmamente minha água de coco, uma senhora aproximou-se de mim e, me entregando um folheto, perguntou se eu aceitava Jesus em meu coração. Peguei o papel e respondi que já havia aceito. Contente, ela quis saber de qual igreja evangélica eu era. Quando disse que era espírita, a mulher começou a gritar.
“Que o demônio liberte seu corpo, pois você está tomada por ele!”, berrava a senhora, chamando a atenção de todos. “Vou orar para que Deus venha lhe salvar, porque você está perdida. Que Jesus tenha pena da sua alma!”, completou ela, transtornada, enquanto fugia de mim como o diabo foge da cruz.
Não é a primeira vez que isso me acontece. Há alguns anos, quando o garoto carioca João Hélio morreu, depois de ser arrastado por seis quilômetros pelos bandidos que roubaram o carro de seus pais, ouvi uma outra senhora evangélica dizer que era “bem-feito para a mãe do menino, porque ela era espírita”.
Tenho amigas e amigos evangélicos maravilhosos. São pessoas abertas, generosas, que por sua atitude respeitosa e amorosa acabaram me fazendo ter vontade de conhecer suas igrejas, seus pastores e pastoras. E, se não me converti, saí com uma excelente impressão, com a sensação de que a experiência me acrescentou muito.
Entretanto, há uma ala de evangélicos que denigre os demais fiéis. É aquela formada pelos intolerantes, que se julgam melhores que o restante do mundo em função de sua opção religiosa, e que em relação a tudo o que é diferente do que escolheram para si reagem de forma agressiva, violenta e hostil.
Esse comportamento tem um nome: bullying. E o que é pior: bullying praticado por ignorância e preconceito, pois, via de regra, essas pessoas nunca leram um livro sobre a doutrina espírita na vida, nunca assistiram a um culto. Criticam e julgam algo sobre o qual têm o mais absoluto desconhecimento.
Tornei-me espírita na adolescência, por meio de uma amiga que me convidou para conhecer a Mocidade da Irradiação Espírita. Além de ouvir ensinamentos sobre tolerância, amor e caridade, tive a oportunidade de colocar em prática essa última, prestando serviços voluntários no abrigo para idosos mantido por eles.
Enquanto trocava os lençóis das camas, preparava as mesas do refeitório para o almoço ou contava histórias para aqueles velhinhos que não tinham mais ninguém na vida, eu compreendia com clareza o que os espíritas queriam dizer quando falavam da importância da caridade, de se colocar no lugar do outro, de aprender a servir.
O mesmo acontece nos cultos. Se você nunca foi a um culto espírita, não espere sacrifício de animais, bruxaria ou qualquer outra coisa do gênero. Saiba que assistirá a uma palestra sobre temas importantes, como egoísmo, vaidade, ira, ansiedade, e depois receberá um passe, que nada mais é que um ser humano que se faz instrumento de Deus e usa suas mãos para passar vibrações positivas e calmantes para você. Encerramos o culto citando, todos juntos, o ensinamento maior de Jesus: “Irmãos de toda a Terra, amai-vos uns aos outros”.
Não me julgo melhor que ninguém por ser espírita, mas também não aceito ser considerada inferior por isso. A lógica dos evangélicos que praticam bullying nesse sentido é totalmente estranha, para não dizer absurda. Quer dizer que se um estuprador, traficante de drogas e assassino resolver se converter a uma dessas igrejas ele será mais honrado perante Deus que eu? De uma hora para outra ele se tornará puro e sem pecados?
Quer dizer então que Madre Tereza de Calcutá e Mahatma Gandhi vão queimar no fogo do inferno, a despeito de todo o bem e caridade que fizeram, porque não eram evangélicos? Basta frequentar uma igreja evangélica, pagar o dízimo e bradar “Aleluia, Jesus”, para que o reino dos céus nos caia no colo, automaticamente?
Eu não acho que Jesus seja surdo e, por isso, considero desnecessário gritar no momento da oração. Também acho que igrejas não são empresas e não concordo com aquelas que obrigam os pastores a atingir metas mensais de dízimos e pedirem dinheiro insistentemente aos fiéis. Mas respeito a fé alheia, porque cada um sabe de si e do seu coração. Pena que a recíproca não seja verdadeira.
Não tentem me salvar, porque eu não estou perdida. Perdidos estão aqueles que praticam o pecado da soberba, que julgam, criticam e agridem quem se mostra diferente. A salvação desse Deus mesquinho, que protege uns poucos escolhidos e despreza e maltrata todo o resto eu sinceramente dispenso.
O meu Deus não tem a faca nos dentes nem o desejo de vingança no coração. Ele tem sede de amor e é fonte de misericórdia e justiça. Ele sabe que erramos sempre e, por isso, está permanentemente com as mãos estendidas para nos ajudar a recomeçar. Ele quer que nos amemos verdadeiramente, independente de raça, cor ou credo, porque veio para que todos (e não apenas alguns) tenham vida.