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Mechanics e o disco que nunca irá existir

26.01.2019 - 08:39:31
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Goiânia – Semana passada eu escrevi sobre A Dança dos Não Famosos – discaço dos pernambucanos Mundo Livre S/A, lançado em agosto de 2018 pela Monstro Discos. O resumo da ópera era mais ou menos o seguinte: uma obra-prima que já nascia anacrônica. Tenho uma experiência semelhante – exceto pelo aspecto de “obra-prima, claro: há anos venho trabalhando em um álbum que se tornou ultrapassado antes mesmo de nascer. (Taí mais um bom motivo para defendermos a legalização do aborto.)

 
Não sei se todos os leitores do Guerrilha Pop sabem, mas sou fundador e vocalista da banda de rock Mechanics. Sem muita modéstia, considero o Mechanics uma das pedras fundamentais daquilo que (ao menos por algum tempo) ficou nacionalmente conhecido como “rock goiano”. Em 2019, completamos 25 anos de estrada. Um quarto de século de roubadas e diversões. Fracasso é para os fortes.
 
Fazemos música barulhenta e incômoda. Algo entre metal, punk e alternativo – sem jamais ser exatamente um dos três. Mas o que mais me atrai nos Mechanics – e que me faz seguir com a banda – é uma espécie de pretensão artística que imprimi desde o princípio.
 
Nossos discos nunca foram amontoados de músicas. Adoro a ideia de álbuns conceituais – aqueles que são escritos ao redor de um tema. Psycho Love (2001) versava sobre paixões doentias. 12 Arcanos (2011) era um tarô musical: você botava o disco em modo aleatório no CD player e ia vendo o que a (má) sorte lhe reservava.
 
Música Para Antropomorfos (2007) foi um projeto ainda mais ambicioso, envolvendo um disco, mas também uma HQ – feita pelo ícone dos quadrinhos independentes, Fabio Zimbres – uma dissertação de mestrado, um filme em animação, um livro teórico sobre rock e quadrinhos e uma exposição de artes plásticas – que está aberta à visitação no Museu da Imagem e do Som de Goiás. O disco/livro que deu origem ao projeto tornou-se cult na cena de rock e quadrinhos do Brasil, recebendo nova edição pela Zarabatana Books em 2018, após quase uma década esgotado. No ano anterior, foi lançado na Colômbia. E em maio ganhará edição em Portugal.
 
Além de contar vantagem, o que eu queria dizer sobre o Música Para Antropomorfos é que ele se aproxima daquilo que se convencionou chamar de ópera-rock. Isto é, um álbum que, mais que gravitar ao redor de um conceito, possui uma narrativa propriamente dita. E era algo do tipo que eu pretendia revisitar no novo disco do Mechanics.
 
Sempre fomos uma banda politizada. Isso, contudo, se dava de forma indireta, alegórica. Com o assustador desenrolar da política nacional nos últimos anos, entendi que era momento de carregar nas tintas. Resolvi então colocar Goiás no centro da história. Aquele velho papo de que o melhor modo de se produzir algo universal é falando do seu quintal. E por décadas a vida política do nosso quintal se resumiu à grotesca disputa entre Iris Rezende e Marconi Perillo. Entre MDB e PSDB. Pronto: estava esboçado meu ponto de partida.
 
Jamais cogitei criar um disco documental, jornalístico. Meu plano era ficcionalizar o tema, operar por metáforas e simbologias. A não ser em casos de extremo talento – como Fred Zero Quatro, do Mundo Livre S/A –, um relato direto sobre a realidade geralmente redunda em música pobre. Panfletos de obviedade tacanha que só servem para alimentar rebeldia punk-adolescente. Não que isso seja essencialmente ruim. Só não era o que me interessava fazer.
 
Projetei o pensamento e me ocorreu a possibilidade de uma ópera-rock sci-fi. Ficção científica pós-apocalíptica, com toques de horror. A coisa começou a esquentar.
 
Goiânia, ano 2057 – ou algo assim. O mundo atravessou outra guerra mundial. Nuclear. Calotas polares derreteram, os litorais foram devorados por oceanos radiativos, a geral se lascou. Aqui, no meio do continente, ainda dava pra segurar as pontas. Uma redoma cobriu parte de nossa capital – afinal, sem a camada de ozônio, os raios solares estorricavam quem fosse exposto a eles. Sobre o asfalto, uma classe média branca. Nos subterrâneos, a resistência, formada por negros, indígenas e outras minorias. 
 
O governo, de acento fascistóide, era pilotado com mão de ferro por uma velha figura. Num clichê de ficção científica barata, apenas seu cérebro sobrevivia, dentro de um aquário invocado, capaz de ser alocado em diferentes corpos sintéticos.  Seu arquirrival havia passado desta para melhor há tempos. Mas…
 
Numa noite de trevas e tempestade, relâmpagos rasgam os céus. Uma seita fundamentalista ora febrilmente enquanto um raro e aguardado alinhamento de astros acontece. Percebe-se então que os monumentos da Rua 85, na Praça do Ratinho e no encontro com a Avenida T-63, são muito mais que meros monumentos. Revelando-se poderosos totens místicos, eles canalizam a energia dos raios para ressuscitar outra liderança política. No cemitério em que estava enterrado, ela ressurge, abrindo caminho através do solo com as próprias mãos, cadavéricas e putrefatas. Um zumbi salivando em busca de vingança.
 
O clímax da narrativa – e provável última música do álbum – seria o derradeiro confronto entre os dois antagonistas. Uma batalha de proporções avassaladoras que encerraria consigo toda a vida que teimava em existir. De uma forma poética, apesar da destruição da cidade e de todos que nela habitavam, o duelo perduraria sem encontrar fim. Por toda a eternidade.  
 
Com o argumento do álbum traçado, era chegado o momento de compor as músicas e escrever as letras. Começamos a fazer isso. Mas aí, a ideia foi gradativamente perdendo força. Discutir a política brasileira através da alegoria traçada acima me pareceu cada vez mais frágil. O PSDB foi varrido do mapa. O MDB segue se equilibrando no exercício fisiológico que exerce tão bem – mas com outros players ainda mais casca-grossa na disputa.
 
Por mais bizarra que seja a narrativa criada para este hipotético novo disco do Mechanics, ela se apequena diante da realidade que temos enfrentado no país. Os últimos dias foram exemplares neste sentido. Descobrimos fortes indícios dos possíveis vínculos que a família do presidente tem com milícias da pior espécie. O presidente, em pessoa, protagonizou aquele que pode ser considerado um dos maiores vexames de nossa história política internacional. Ameaçado de morte, um deputado federal abriu mão do mandato para o qual foi eleito – e o presidente festejou em suas redes sociais. E há poucos minutos vimos o terrível crime ambiental de Mariana se repetir, agora em Brumadinho, com mais de 200 desaparecidos e danos incalculáveis para o meio-ambiente.
 
Vou te contar uma coisa: É impossível competir com isso. 
 
 
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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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