Goiânia – Muros segregam. Isolam. Separam. É para isso que servem.
Muro de Berlim. O muro do Trump. Barreiras políticas convertidas em matéria. Aço, pedra e concreto tornando o outro inacessível, incomunicável, invisível.
O Brasil de hoje está trabalhando duro na construção de muros. Com velocidade ultrassônica, eles se erguem entre classes sociais, credos, gêneros e etnias. Esta me parece a principal marca do governo federal: não só a negação, mas o combate ostensivo à alteridade. Deixaram isso muito claro durante a campanha eleitoral. E estão cumprindo à risca a promessa feita.
Em determinadas circunstâncias, muros podem ser úteis. Necessários, até. Nunca desejáveis. Nunca. De modo que podemos dividir a humanidade em dois grupos: os que querem construir muros, e aqueles que desejam derrubá-los. Qualquer micróbio é capaz de identificar em qual grupo o presidente Bolsonaro se encontra. Daí que, num devaneio diante da sufocante realidade do país, comecei a pensar que um muro pode até ser uma boa ideia.
“Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria” – disse você sabe quem. A esta altura, todo mundo já se deu conta que “vermelho” é qualquer um que não seja bolsonarista. Mas digamos, hipoteticamente, que ao invés de deixarmos a pátria, nós, “vermelhos” fôssemos convidados a ocupar apenas uma parte do gigante pela própria natureza?
Poderia ser qualquer região. Pelo ódio constante direcionado ao Nordeste, imagino que seria para lá que iríamos. Seria ótimo. Acarajé e tal. Mas eu toparia qualquer lugar. O Brasil é lindo e rico do Oiapoque ao Chuí. Caberia então ao governo delimitar a área.
O governo determinaria também quem iria para este outro Brasil – que, por motivos de praticidade, passo a chamar de Brasil 2. Imagino que seja muita gente. Todo mundo que fosse “escolhido”, seria obrigado a ir para o Brasil 2. Mas estaria aberta, de forma contínua, a saída de voluntários também. Imagino que o êxodo, nestas condições, aumentaria exponencialmente.
Como regimes fascistóides gostam mesmo é de riqueza, voluntários ou obrigados só poderiam deixar o Brasil levando 20% de seus bens. Para mim, o duro seria largar 80% da minha coleção de gibis e discos para trás. O resto é moleza. Fico imaginando que delícia seria estar num lugar em que ninguém compactuasse com o atual governo.
No Brasil 2, cada um poderia seguir a religião que bem entendesse. Mas as igrejas pagariam impostos e não seria permitido qualquer tipo de extorsão dos fiéis. Política e religião não se misturariam. Estado laico pra valer.
Imaginando a quantidade de professores e intelectuais que iriam para o Brasil 2 – voluntariamente ou não – só consigo pensar em escola para todos. Uma escola que eduque, ao invés de adestrar. Que atenda as aspirações dos indivíduos e da sociedade, ao invés de se colocar refém do mercado. Tenho certeza que erradicaríamos o analfabetismo em questão de meses. Cuba, aquela ilhota, fez isso em menos de dois anos. Então, tá fácil.
Todas as orientações sexuais seriam permitidas e defendidas no Brasil 2. Sendo uma questão de foro íntimo, não cabe ao Estado ficar enchendo o saco. Gente reprimida e infeliz só embaça a vida dos outros…
No Brasil 2, arte, cultura e bens simbólicos seriam valorizados. Assim como a ciência e o meio-ambiente. Acredito que lá essa onda do elogio à ignorância não vingaria. Suspeito que sequer chegaria a existir.
A economia seria pautada pelo bem-estar da sociedade, e não do mercado financeiro. Num país repleto de riquezas materiais e humanas como o Brasil 2, a produção seria a tônica. Especulação e exploração a gente deixaria para a turma de cá.
A tecnologia também estaria a serviço da sociedade. Trabalhos desumanos ficariam ao encargo de máquinas – algo que aqui só acontece quando a máquina vale menos que a vida humana. O trabalho observaria as vocações dos indivíduos e das regiões. As cargas horárias seriam reduzidas.
Ou melhor: trabalha quem quer, naquilo que sente prazer. Ou então trabalha mais quem quer uma graninha a mais. Renda básica universal é prioridade no Brasil 2. Afinal, neste país, a felicidade do ser humano – e não do capital – é que interessa.
A saúde será direito do cidadão e responsabilidade do Estado. Gratuita e universal. Se o cara quiser fazer Medicina pra ficar rico, melhor ficar por aqui mesmo.
A imprensa terá liberdade. Mas será regulamentada. Megacorporações de comunicação, nem pensar. O povo não é bobo, abaixo a…
Teríamos eleições. Para tudo: presidente, governador, prefeito, senadores, deputados, vereadores. E não só. Na escola, na fábrica, no bairro. Em questões polêmicas, dá-lhe plebiscito. Será uma política do Brasil 2 o incentivo à participação social. Financiamento público de campanha, lógico.
Não faremos uma assembleia constituinte. Não precisa. Sabe essa Constituição que o pessoal rasgou? Vamos usar essa mesmo. Ela é boa. Basta respeitar.
Teremos outra bandeira. (Preferencialmente menos brega.)
Teremos outro hino. Canta quem quiser.
E não teremos população armada. Não porque a venda de armas precise ser proibida. Mas porque o tipo de gente que imagino vivendo no Brasil 2 jamais compraria um estilingue que fosse.
A segurança pública é responsabilidade do Estado. A defesa da soberania nacional, assunto das Forças Armadas. Exército para proteger, não para dar palpite.
Imagino que quem vier para o Brasil 2, não será bem-vindo de volta ao Brasil. Daí surge a questão do muro. Como solução, sugiro que cada país arque com a parte que lhe cabe. Cada um cuida do seu lado. Posso prever o Brasil levantando paredões robustos e altíssimos, arames farpados, concertina, torres de monitoramento, homens armados e cães raivosos espalhados por todo o perímetro. Acho uma tolice. Duvido que alguém vá querer retornar.
Já o Brasil 2 não gastaria um centavo sequer com o muro. Suas fronteiras estariam sempre abertas para quem quer que seja: brasileiro ou imigrante. Respeitaremos os acordos firmados com os outros países. Mas no que depender da gente, todo mundo é bem-vindo. Pra ser feliz.
O muro da Utopia
*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.